quinta-feira, janeiro 30, 2003

Mais um dia de tédio, miséria e desesperança arrasta-se diante de mim, preso em incontáveis correntes que de tão pequenas, de tão sutis, de tão usuais tornam-se-me invisíveis. Ainda que consiga identificar eventualmente uma ou outra, que, individualmente, pode ser facilmente arrebentada, o emaranhado completo continua inatingido, a totalidade da teia que impede o livre movimento continua intacta, e eventualmente a aranha parasita que suga toda a nossa vitalidade reconstrói os elos partidos. Seja enquanto estamos debatendo-nos com outras partes da sua teia, seja quando o cansaço, o desespero ou a passividade faz-nos cair em letargia profunda, dando assim tempo para a sangue-suga reparar a teia infame e continuar o seu trabalho asqueroso.

Ó Humanidade, para onde foste? Depois de bravos séculos, da diligente coleta de sementes na savana africana à alucinante explosão de criatividade da revolução moderna, caíste, após ardorosa luta, é verdade, refém da tua própria imaginação. Deixaste-te agrilhoar por uma mera e estúpida abstração que tu mesma criaste e que hoje chupa ominosamente teu sangue. Sangue esse outrora rubro de vida, hoje mera bebida pré-preparada que se compra em supermercados, quase tão vil quanto a asquerosa criatura que dele alimenta-se.

Ó Humanidade, não sei se ainda podes recuperar-te, se ainda há tempo para acordares e esmagar com as tuas mãos milenares este detestável parasita que nos enlaçou em suas macabras teias. Parece-me que só nos resta a morte hedionda, a morte vergonhosa, a morte dos que nunca viveram.

sexta-feira, janeiro 17, 2003

Eles estão de olho na Amazõnia? Por que, se já a têm?




Ação dos EUA na Colômbia pode
ter violado direitos humanos

GENEBRA - Investigações no interior da selva amazônica colombiana podem causar um mal-estar nas relações do governo norte-americano com os países da América Latina. No final de 1998, uma ação da Forca Aérea colombiana contra a guerrilha resultou na morte de 18 civis. Para mostrar seu suposto comprometimento com os direitos humanos, a Casa Branca retirou o certificado de que a Aeronáutica do país respeita os direitos humanos e deixou de enviar combustível para os aviões colombianos.

O problema é que, à medida que a investigação sobre o caso prossegue em Bogotá, fica cada vez mais claro que os colombianos não atuaram sozinhos. Relatos dos soldados que participaram da ação e mesmo artigos publicados em jornais norte-americanos, como o "Los Angeles Times", apontam que cidadãos norte-americanos e empresas auxiliaram os colombianos no ataque.

A ação dos colombianos foi contra unidades das Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc), perto da cidade de Santo Domingo. Um helicóptero do governo despejou uma granada que acabou matando civis. Mas, segundo relatos dos pilotos dos helicópteros, os planos de ataque foram feito na sede da empresa norte-americana Occidental Petróleo, em Arauca.

Além disso, os aviões usados para a operação foram abastecidos na sede da empresa. Outra companhia norte-americana que estaria envolvida é a AirScan, que teria dado informações estratégicas sobre o local onde as Forças Aéreas sobrevoariam.

Diante da pressão de organizações não-governamentais, especialistas da ONU reconhecem que poderão pedir para que o governo colombiano faça um relato oficial sobre o que teria ocorrido em 1998, explicando qual teria sido o papel dos Estados Unidos na operação. O caso poderia entrar na agenda da Comissão de Direitos Humanos, que tem sua reunião anual em abril, em Genebra.

Para especialistas em direitos humanos, o caso deixa claro por que os norte-americanos insistem em ter um acordo com a Colômbia de imunidade de seus soldados perante o Tribunal Penal Internacional. Segundo as regras da nova corte, qualquer um que cometa crimes de guerra, seja em seu país seja no exterior, poderia ser processado pelo tribunal internacional.

Diante da nova realidade jurídica, os Estados Unidos estão buscando acordos com vários países para não serem obrigados a terem que comparecer diante de um juiz internacional. Segundo esses entendimentos, já assinados com Israel, República Dominicana e Timor Leste, os governos se comprometeriam a não levar à corte os norte-americanos suspeitos de terem cometido crimes.

segunda-feira, janeiro 13, 2003

Quelque chose à détourner

"y es dueño de los sentidos el sueño" (CALDERÓN DE LA BARCA. La Dama Duende, Jornada Segunda)
Apreensão ou princípio metodológico?

"no sé, ¡vive Dios! no sé,
ni qué tengo de dudar,
ni qué tengo de creer."
(CALDERÓN DE LA BARCA. La Dama Duende, Jornada Segunda)

À angústia do aristocrata retruca o servo:

"Yo sí." (Idem)

Resta saber: quem está certo?
Sentenças Maiores

Proferir quando se te oferece de beber e tens vazio o copo:

"Natura abhorret vacuum" (RABELAIS. Gargantua, V)

A natureza tem horror do vácuo, princípio da antiga física

sexta-feira, janeiro 10, 2003

Enquanto não lanço os fundamentos sorridentes da ludonomia...

"L'autonomie... ou bien qu'on me change en hippopotame." (DUCASSE, Isidore. Chants de Maldoror. Chant 5e, p. 201)

Apensas testando o funcionamento da lusofonia:

A autonomia... ou então que se me transforme em hipopótamo.