domingo, junho 29, 2008

Da ignorância da filosofia

Por acaso caí num blogzinho aleatório, onde uma olavete se dizia muito feliz por não ter estudado filosofia na universidade: teria então tornado-se uma militante do PSTU. Mas boa pessoa inteligente que é, escolheu os números e as leis, nada de filosofia. Vê-se bem quantas bobagens estas mui inteligentes, cultas e livres olavetes pensam. Filosofia e faculdade de filosofia, parecem só as conhecer pela via torta do Olavo. Primeiro, Marx e Hegel estão fora de moda, ninguém perde tempo com estes dois em faculdades de filosofia, sobretudo como o "materialista" (até mesmo porque ele não tem absolutamente nada de relevante em filosofia). Segundo, em filosofia se estuda matemática (em metafísica, filosofia da linguagem e filosofia da ciência) e leis (em filosofia do direito, política e ética). Em resumo, a Olavete não tem a menor idéia do que se estuda em filosofia, mas acha que pode falar algo sobre o assunto simplesmente porque leu uns livrinhos do Olavo (que *nunca* publicou nada em nenhuma revista reconhecida de filosofia, que *não* são controladas por comunistas nem outras camarilhas acadêmicas que teriam algum motivo particular para esconder a produção filosófica do Olavo, ele provavelmente não publica porque não escreve nada que presta).

quarta-feira, junho 18, 2008

Da saúde e dos costumes dos povos de climas mais frios

O frio fez das suas cá por dentro do meu corpo. A garganta pesa-me, os pulmões insistem nos espasmos, e o nariz teima em fazer-se fonte. É ridículo como os habitantes das zonas mais frias gostam de jactar-se do seu frio diante dos habitantes das zonas mais quentes, e passados duas ou três semanas de inverno, quando o corpo já cansado de ficar encolhido e de defender-se dos ataques dos patógenos começa a reclamar, então maldizem entre si as rudezas do inverno e olham com inveja para os lugares em que o tempo é suave o ano inteiro. De volta ao congelador. Ao menos dá-me uma desculpa para abusar do chá e do gengibre

terça-feira, junho 17, 2008

Palavras que jamais hão de ser proferidas, ou mensagens a ninguém

Carissima Apocolocintótica, a Fama carrega teu nome por todas as direções, dizem os rumores que tuas poesias são das mais recomendáveis. Suspeito quereres privar-me dos regozijos da tua arte, pois nunca me disseste ser poetisa.

domingo, junho 15, 2008

Pensamentos de um suicida

"Só há dois tipos de argumentos razoáveis contra o suicídio: os de ordem teológica e os de ordem política. Sendo ateu e anarquista, nenhum dos dois me comove."

* * *

"O suicídio é a expressão máxima da liberdade e da racionalidade"

* * *

"Àquele impossibilitado de viver uma bela vida deve ser permitido morrer uma bela morte"

sexta-feira, junho 13, 2008

[Prêt-à-parler] Das virtudes da vergonha

A dizer a si mesmo quando a Vergonha resolve manifestar-se.
ma vergogna mi fé le sue minacce,
che innanzi a buon segnor fa servo forte. (Dante. Comédia, Canto XVII)

terça-feira, junho 10, 2008

[prêt-à-parler] Indiferença frente a volubilidade da fortuna

A dizer quando nos fazem prognósticos ou quando ocorre algo inesperado:

Non è nuova a li orecchi miei tal arra;
però giri Fortuna la sua rota
come le piace, e'l villan la sua marra (Dante. Commedia, Canto XV)a

[Prêt-à-parler] Ao suicida

A dizer àqueles que, por uma outra via, partem do mundo do vivos.

"Se fosse tutto pieno il mio dimando",
rispuos'io lui, "voi non sareste ancora
de l'umana natura posto in bando (Dante. Commedia, Canto XV)

[tagebuch] Preterido

Eis que ontem me assaltou uma pontada de inveja e desânimo. Fui preterido pela Incógnita em favor do Marxóide Promíscuo, quanta humilhação! Dramatizo um pouco, cabe dizê-lo, mas de fato senti-me rebaixado. Não bastasse o estranho charme exercido pelo Marxóide Promíscuo em todas as mulheres, justo a Incógnita tinha que lhe cobrir de elogios! E que elogios! Pois então ele escreve de maneira tão ágil, tão rápida, tão clara e tão inteligente que a Incógnita não apenas lhe sente inveja, como ainda vai-lhe fazer propaganda aos seus professores. Custa-me acreditar que alguém tão mediano quanto o Marxóide Promíscuo possa exercer tão ampla influência sobre as mulheres, mais, sobre as mulheres inteligentes.

Ó Fortuna, se te adivinho bem as intenções, foi um aviso exigindo-me a volta ao claustro. É forçoso reconhecer a inutilidade de rebelar-me contra tua vontade, volúvel deusa, não me resta portanto senão seguir teus desígnios ou libertar-me definitivamente do teu domínio. Que escolha tomar? Submissão ou liberdade? A vida escrava ou a morte nobre?

segunda-feira, junho 09, 2008

Fracasso

Já ia esquecendo. O laço não funcionou. Mas o dia é longo, talvez haja nova chance.

Reminiscências de um tempo não vivido

O correio fez uma entrega ao vizinho da frente. À janela, impressionou-me o tamanho do pacote entregue. A involuntária curiosidade acerca do pacote trouxe-me à mente os romances do séc.XIX. O tamanho do pacote daria conversa para o próximo encontro com os demais vizinhos.

(Ficou péssimo, não deveria postar. Mas quem se importa? É material para O Livro Mais Chato do Mundo)

domingo, junho 08, 2008

[idéia] Déja vu

Escrever conto/adventure de um personagem atormentado por déja vus. Possivelment incluir trama pré-apocalíptica (TFP).

[tagebuch] Déja vu

Incrivelmente sonolento. Deixarei os erros de português à vontade nesta entrada aqui.

Resolvi escrever porque acabei de vivenciar um dos déja vus mais nítidos e amedrontadores que já tive. A verdade é que os tenho senão freqüentemente, pelo menos não raramente, mas eles raramente são nítidos o suficiente para me causarem algum espanto. Eu simplesmente me lembro de já ter vivenciado a situação atual, às vezes me lembro de no passado ter imaginado, ou sonhado, ou mesmo lembrado (!) da situação atual. É uma sensação esquisita, estar fazendo algo e subitamente lembrar que uns tempos atrás ter lembrado de já ter feito um dia aquilo. Hoje foi pior, eu estava lendo um post na ASH, e eu tive certeza absoluta de já o ter lido, eu já sabia o que estava escrito após ler a primeira linha, diabos! Eu estava tão seguro de já ter lido aquilo que logo fechei o leitor de news pensando que eram maçadas essas ressurreições de threads mortas (o infame necrotrheading, no linguajar dos anglos). Logo após fechá-lo fiquei pensando quão velha seria aquela thread, tinha a impressão de ter sido uma das primeiras que li na ASH. Pois bem, fui verificar as datas, e eram todos de dois dias atrás. Eu esperava uns seis meses.

Diabos, está-me o cérebro a pregar peças! Se continuar deste jeito eu logo viro um maluco que acredita em premonição e sei lá mais o quê.

sexta-feira, junho 06, 2008

Fraudada a batalha

Vãs foram as esperanças! Não houve batalha alguma, a missão de reconhecimento afugentou os inimigos e foi vitoriosa. Não haverá tempestade, o frio afugentou o calor sem travar nenhum combate memorável.

Da psicologia IRCiana brasileira

Confesso! Rompi os votos e fui espiar o que falavam as almas que deambulam pelo IRC brasileiro. Como se esperava, surpresa nenhuma: estavam lá a falar das suas experiências sexuais. Os que se dizem homens falando das impressões que lhes causavam as mulheres, as que se dizem mulheres das impressões que lhes causavam os homens. E, como não poderia faltar, os solteiros atirando-se sobre qualquer uma lhes desse atenção. Em meio às confissões sexuais de praxe, logo apareceram o Senhor Google-Copy-Paste e a Velha Mística. Com medo de tal mistura insalubre, parti antes que me morressem de desgosto alguns neurônios.

Mas... estaria lá também a Dama dos Girassóis? Que curiosidade mórbida! Controlo-me, manterei uma distância saudável daquilo lá, afinal, o que de interessante seria ela capaz de dizer?

[Espelho d'alma]

"Do céu tombei aos caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto..." (Alphonsus de Guimaraens. Sonetos)

Uma tempestade se apronta

O céu que estivera azul é paulatinamente recoberto por uma espessa manta cinza. A calmaria deu lugar a um vento constante que uiva como se estivesse anunciando um ataque e em intervalos quase periódicos recrudesce seu assalto com rajadas violentas, como fossem batedores de vanguarda a testar a resistência dos muros. O calor abrasante da manhã bateu em retirada, e aos poucos e com intensidade crescente o frio ocupa o terreno vago. Prepara-se um combate glorioso.

quinta-feira, junho 05, 2008

Do uso rotineiro da palavra 'tedioso'

Intriga-me o uso comum da palavra 'tedioso'. Parece-me que as únicas coisas que o vulgo não considera tediosas são justamente as mais chãs. O que é interessante hoje em dia? O lugar-comum, o fácil, o de cores fortes, o conhecido, o costumeiro. É assombroso como podem distrair-se repetindo pela milésima vez a mesma mesquinharia.

Tratemos das fofocas, da análise psicológica de boteco, das lamentações ignóbeis. As grandes idéias, as grandes paixões, as grandes ações quedam-se bem na lata de lixo.

Nada de nada,

Pois muito bem, vejamos. Meu vício em internete é duro de combater. Meu prazo está pelo fim. A solução derradeira aproxima-se. São cerca de 9:00, veremos se às 21:00 ainda estarei entre os vivos.

* * *

Os TFPeiros estão eriçadíssimos com a desistência da dona Clinton. O maldoso ataque comunista é para já. Eu bem que gostaria de acreditar que o mundo possui só mais um ou dois meses de vida. Mas se em bons períodos já me vai tudo ao revés, quem dirá se a guerra mundial estourasse. De todo modo, não creio nos delírios TFPeiros, apenas divertem-me as visões apocalípticas do presente. Faz parecer que o mundo é um romance de espionagem, dá-lhe um saborzito especial que esconde um pouco a sua feiúra e mesmice.

* * *

Ó Fortuna, prometo-te umas libações de chá verde japonês se me auxiliares um tantinho que seja hoje.

quarta-feira, junho 04, 2008

Do gosto pela mediocridade

Creio estar involuindo. É como se a Fortuna em vez de punir-me com mais e novas misérias tirasse um prazer especial em fazer-me reviver as velhas. Eis-me novamente diante da mediocridade aborrecida das mulheres, do seu gosto pelo papel de mulherzinha e sua paixão por homens que representam bem o seu papel, o papel de cafajeste, sujo, inculto e tolo. Mais uma vez me enoja como elas preferem o riso fácil dos sensaborões, o elogio vazio dos promíscuos, a previsibilidade dos inautênticos. E, claro, vêm depois choramingar contra os homens.

Pego-me pensando se a preferência das mulheres pela sensaboria causa-me alguma inveja oculta, se ser preterido pelos cultores da mediocridade me enche secretamente de algum desgosto profundo e raivoso. Parece-me que não. Que as mulherzinhas gostem de um homão, entende-se. Que mais era de se esperar? Talvez o que me aflija seja antes o fato de não ter encontrado senão mulherzinhas, o fato de que apenas em raras ocasiões eu tenha encontrado mulheres a quem eu pudesse admirar e considerar como iguais. Um par é o que busco, e só encontro bonecas e peças de decoração.

Mas que digo? Acaso busco eu alguma coisa? Não terei aprendido aquela lição primeira dos estóicos, a de abandonar tudo que não seja estritamente meu, que não esteja estritamente sob meu controle? Terei esquecido o exemplo reverendo de Diógenes, que se bastava a si mesmo?

Não. Nada tenho com os personagem de romance do século XIX. O tipo de frustração sexual e comportamento erótico pintado pelos escritores daquela época sempre me pareceu estranho e distante, e não o pareceriam menos agora se eu já não lhes estivesse acostumado, se depois de tantos romances eu já não analisasse a mim mesmo tendo-lhes como ponto de referência.

Representai bem seu papel, mulherzinhas, que eu estou bem cá, só comigo mesmo.

terça-feira, junho 03, 2008

[prêt-à-parler] Da alegria da revolução

"[...] há uma delícia colérica em espedaçar os deveres e as conveniências [...]" (Eça de Queirós. O primo Basílio)

domingo, junho 01, 2008

[tagebuch] É chegado o tempo de um teste

A semana que inicia será uma semana de testes. Uma semana decisiva será.

A fraqueza da vontade é algo que me foi sempre causa de espanto. Se sabemos que uma ação é incorreta, por que mesmo assim a realizamos?! Não parece ser esta uma falha tremenda, abominável mesma da nossa constituição? Sabemos como devemos agir, mas não agimos como sabemos dever. Toda a impressão de que há um Eu profundo sobre o qual não temos poder algum advém daí. A incoerência entre o conhecimento do dever e a ação deveria ser explicada por alguma força oculta, que embora invisível à introspecção, inacessível à consciência, guia todas as nossas ações. Mas qual a justificativa para tal curiosidade, para o desejo de realizar um estudo sistemático e, para alguns, científico do suposto Eu profundo? A que nos levaram as tentativas de cientificizar a fraqueza da vontade, senão àquelas caricaturas grotescas que Zola soube empregar, com maestria, há que dizer, nos seus livros? Lembro da 'Besta Humana', em que a incapacidade do protagonista de controlar seus impulsos assassinos era creditada à essência selvagem, simiesca, coberta por um leve verniz civilizacional, àquele famoso peso de todas as gerações passadas que oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Por que não se aceita simplesmente a fraqueza da vontade como uma componente básica, portanto irredutível a outros processos ou entidades mais simples, da humanidade? Em lugar de fazermos a ciência da fraqueza, ganharíamos mais fazendo-lhe a poesia, aceitando-a como um dos fardos que devemos carregar por este vale de lágrimas, como uma espécie de pecado original que cada um nós herdou do primeiro humano, e do qual só a morte nos pode liberar.

Vejamos como se dará nesta semana derradeira o meu embate com a vontade, o meu embate comigo mesmo.

[prêt-à-parler] Da magreza

A se dizer àquelas belezas magras, que o vulgo com toda a sua rudeza considera feia:

"É duma elegância de tísica" (Eça de Queiroz. O primo Basílio)