sábado, agosto 09, 2008

A última mensagem

A pior das penas é viver indignamente. Entre uma vida feia e uma morte bela, é clara a única decisão racional a tomar. A morte voluntária só deveria ser lamentada quando resultado de pressões
externas ou de desespero temporário, a minha não é nada disso. Sêneca muito bem colocava a morte voluntária como um presente do deus: ela garante que nós nunca podemos perder a liberdade, garante que ninguém pode ser obrigado a viver o que não considera digno de viver. A minha morte é um exercício de liberdade e racionalidade, não de ódio, medo ou impulso momentâneo. Não há portanto, ninguém a culpar nem coisa alguma a lamentar. Pode-se sentir a falta de companheiro de cela
quando ele finalmente consegue por em prática seu plano de fuga, mas a sua falta não deve ser motivo de lamentações ou acusações, devendo, ao contrário, ser celebrada. Sinto não ter feito mais, sinto não ter sido melhor do que fui, e espero que a minha ausência permanente no final se mostre antes motivo de alívio do que motivo de pena.

Das muitas e variadas nulidades com que se ocupa minha mente vazia

* Guerra na Ásia central

Ontem a Rússia e a Geórgia declararam guerra. O presidente georgiano
resolveu atacar a Ossétia mesmo sabendo que lá havia tropas russas.
A OTAN resolveu se manter afastada, apesar dos pedidos georgianos.
Esperemos que a situação não se agrave.

* Guerra na alma

Ao que parece eu perdi completamente o combate contra mim mesmo.
Estes versos do Petrarca me deram algum alento:

Pochi compagni avrai per l'altra via:
tanto ti prego piú, gentile spirto
non lassar la magnanima tua impresa.

E talvez o Buda esteja certo, e eu deve reconhecer que eu não sou nada
disso. Nem minhas sensações, nem minhas percepções, nem meus
pensamentos.

* Nada

Carteiro veio interromper meu fluxo de pensamento. Vou agora ver pela
última vez o ASH/ASM. Terminei, apenas um maluco falando sobre suas
crenças religiosas malucas.

* Barreto

Lendo alguns pedaços do "Diário Íntimo".

* Mais nada

Li pela última vez o zombiesquad. Não sei qual a graça de ler aqueles
ianques criançolas.

* Desejos

Muitas vezes eu invejo os surdos. A brutalidade sonora das cidades
contemporâneas torna aparelhos auditivos em boas condições em
verdadeiros instrumentos de tortura. Pensando bem, com a feiúra, o
fedor, a temperatura, e a péssima comida do mundo contemporâneo,
pareceria melhor estar privado de todos os sentidos. Alma pura!, é o
que eu gostaria de ser neste momento.

* Sobre os onívoros

Um grupo de onívoros conversa sobre os animais e partes de animais que
comeriam ou se recusariam a comer. Se eu ainda existisse,
dir-lhes-ia: então a única coisa que lhes importa na comida é que ela
lhes saia bem ao paladar. Pois o que lhes impede de comerem-se uns aos
outros? Ora, acaso não é evidente que a alimentação não é apenas uma
questão de paladar, e que os princípios éticos se sobrepõem às
demandas do gosto?

terça-feira, julho 29, 2008

[Prê-à-parler]

A dizer quando se deseja expressar o desgosto por certo tipo de discussão:
"voler ciò udire è bassa voglia." (Dante. Inferno, Canto XXX)

domingo, julho 27, 2008

Silêncio

A mística indiana sempre nos exalta a silenciar a mente. Tentarei fazê-lo, e portanto silenciarei também isto aqui.

sexta-feira, julho 25, 2008

Nota explicativa

Já quase me esquecia. Sim, era para tudo ter acabado esta semana, no entanto no dia planejado para a partida aconteceu um imprevisto. Eu esperava ter para mim a tarde inteira, mas alguém apareceu inesperadamente, por isso tive que adiar a minha saída. Subestimei a Fortuna, pregou-me ela uma peça. Foi uma lição de humildade, e aprendi que a nós não é dado considerarmo-nos iguais aos deuses.

quinta-feira, julho 24, 2008

Mais respostas a ninguém

A Signorina Contessa pergunta jocosamente ao Marxóide Promíscuo se ele não lhe arrumaria um emprego na fabricação de bebidas alcoólicas. Ele jocosamente lhe responde perguntando se ela queria cortar cana. Eu responderia algo assim: "Na fabricação de alcoólicos? Eu gostaria de fazer como nos romances: te seqüestrar da casa de teus pais e te levar para algum canto perdido na Itália, onde teríamos uma pequena vinícola, e passaríamos o tempo perdidos do mundo, bebendo vinho, escutando Boccherini e Viotti, lendo Ariosto e Petrarca. Mas te sabendo pouco amiga do vinho e da vida bucólica, o que eu faria é te arrumar um belo emprego em algum fabricante de vodca. Iríamos para São Petersburgo, e no verão caminharíamos sob o sol noturno ao longo do Nevá, e no inverno iríamos ao balé ou ficaríamos quietos em casa, longe do frio, tomando chá e lendo Púshkin. Hein, que te parece?"

terça-feira, julho 22, 2008

Ça finit aujourd'hui

Uns tempos atrás o Tavernier fez um filme que se chamava 'Ça commence aujoud'hui'. Pois para mim ça finit aujourd'hui. O gosto do nada venceu. Mais à noite, no momento apropriado, eu me liberto do jugo da Fortuna.

Perigosa coleção de solecismos a ser evitada pelas almas delicadas e ciosas da boa gramática

Hoje descobri que se amigaram a Signorina Contessa e o Marxóide Promíscuo. Duas ou três semanas após conhecerem-se e já se amavam por toda a eternidade. Preterido ainda mais uma vez pelo Marxóide Promíscuo, quem diria! Mas fazem lá um bom par, há que reconhecer.

E por que eu resolvi falar disso? Não sei. É que do mundo dos vivos já nada me causa curiosidade, e a Signorina Contessa era uma das coisas que me davam algum alento para continuar arrastando-me por aqui. O contato com as suas frivolidades e expansões representava uma novidade que dava algum sustento à minha alma quebrantada. Curiosidade rasa, é preciso dizer, mas alguma curiosidade de qualquer modo. Se antes eu permanecia entre os vivos pela curiosidade de ver o que aconteceria no dia seguinte, agora que a curiosidade já não mais me acompanha, falta-me qualquer motivo para flutuar por aqui neste mundo. Talvez venha daí o interesse que ela me causa, foi o último lampejo de vida a atingir-me os olhos. Que me resta a não ser cantar com Schubert:
O komme Tod, und löse diese Bande!
Ich lächle dir, o Knochenmann,
Entführe mich leicht in geträumte Lande,
O komm und rühre mich doch an.


Sabendo que a Morte não é senão serva da Fortuna, e que a Fortuna é surda a todo rogo, é vão tentar seduzi-la por cantos, é preciso agir por si mesmo. Pois se me escapa a curiosidade pelos vivos, resta-me ainda a curiosidade última, a curiosidade pelo nada.

domingo, julho 20, 2008

Resposta engraçadinha a alguém que nunca conheci e a uma discussão de que jamais participei, ou do vegetarianismo

Ao que parece todos aqui anseiam pelas tuas carnes, grande Boi. Mas de mim nada tens a temer, que das tuas entranhas prefiro a distância. Não me leves a mal, digo-o respeitosamente, tenho certeza que o mais refinado dos gastrônomos ficaria admirado de tua carne. É que sou esteticamente impossibilitado de comer tudo que tem sangue e palpita, tudo que sofre e deseja, tudo que foi arrancado da grandiosidade ilimitada do nada e atirado a este mundo de limites, condenado a
sofrer prazer e dor. Se for verdade que não estou absolutamente sozinho e que, sendo humano, nada do que é humano é-me estranho, então sou forçado a expandir o argumento e dizer: sofro, nada do que sofre é-me estranho.

terça-feira, julho 08, 2008

Do fardo do suicida

Os suicidas podem ser definidos como pessoas que carregam um eterno e fatigante manto, o manto da deficiência física, moral ou intelectual.

Oh in etterno faticoso manto! (Dante. Inferno, Canto XXIII

domingo, junho 29, 2008

Da ignorância da filosofia

Por acaso caí num blogzinho aleatório, onde uma olavete se dizia muito feliz por não ter estudado filosofia na universidade: teria então tornado-se uma militante do PSTU. Mas boa pessoa inteligente que é, escolheu os números e as leis, nada de filosofia. Vê-se bem quantas bobagens estas mui inteligentes, cultas e livres olavetes pensam. Filosofia e faculdade de filosofia, parecem só as conhecer pela via torta do Olavo. Primeiro, Marx e Hegel estão fora de moda, ninguém perde tempo com estes dois em faculdades de filosofia, sobretudo como o "materialista" (até mesmo porque ele não tem absolutamente nada de relevante em filosofia). Segundo, em filosofia se estuda matemática (em metafísica, filosofia da linguagem e filosofia da ciência) e leis (em filosofia do direito, política e ética). Em resumo, a Olavete não tem a menor idéia do que se estuda em filosofia, mas acha que pode falar algo sobre o assunto simplesmente porque leu uns livrinhos do Olavo (que *nunca* publicou nada em nenhuma revista reconhecida de filosofia, que *não* são controladas por comunistas nem outras camarilhas acadêmicas que teriam algum motivo particular para esconder a produção filosófica do Olavo, ele provavelmente não publica porque não escreve nada que presta).

quarta-feira, junho 18, 2008

Da saúde e dos costumes dos povos de climas mais frios

O frio fez das suas cá por dentro do meu corpo. A garganta pesa-me, os pulmões insistem nos espasmos, e o nariz teima em fazer-se fonte. É ridículo como os habitantes das zonas mais frias gostam de jactar-se do seu frio diante dos habitantes das zonas mais quentes, e passados duas ou três semanas de inverno, quando o corpo já cansado de ficar encolhido e de defender-se dos ataques dos patógenos começa a reclamar, então maldizem entre si as rudezas do inverno e olham com inveja para os lugares em que o tempo é suave o ano inteiro. De volta ao congelador. Ao menos dá-me uma desculpa para abusar do chá e do gengibre

terça-feira, junho 17, 2008

Palavras que jamais hão de ser proferidas, ou mensagens a ninguém

Carissima Apocolocintótica, a Fama carrega teu nome por todas as direções, dizem os rumores que tuas poesias são das mais recomendáveis. Suspeito quereres privar-me dos regozijos da tua arte, pois nunca me disseste ser poetisa.

domingo, junho 15, 2008

Pensamentos de um suicida

"Só há dois tipos de argumentos razoáveis contra o suicídio: os de ordem teológica e os de ordem política. Sendo ateu e anarquista, nenhum dos dois me comove."

* * *

"O suicídio é a expressão máxima da liberdade e da racionalidade"

* * *

"Àquele impossibilitado de viver uma bela vida deve ser permitido morrer uma bela morte"

sexta-feira, junho 13, 2008

[Prêt-à-parler] Das virtudes da vergonha

A dizer a si mesmo quando a Vergonha resolve manifestar-se.
ma vergogna mi fé le sue minacce,
che innanzi a buon segnor fa servo forte. (Dante. Comédia, Canto XVII)

terça-feira, junho 10, 2008

[prêt-à-parler] Indiferença frente a volubilidade da fortuna

A dizer quando nos fazem prognósticos ou quando ocorre algo inesperado:

Non è nuova a li orecchi miei tal arra;
però giri Fortuna la sua rota
come le piace, e'l villan la sua marra (Dante. Commedia, Canto XV)a

[Prêt-à-parler] Ao suicida

A dizer àqueles que, por uma outra via, partem do mundo do vivos.

"Se fosse tutto pieno il mio dimando",
rispuos'io lui, "voi non sareste ancora
de l'umana natura posto in bando (Dante. Commedia, Canto XV)

[tagebuch] Preterido

Eis que ontem me assaltou uma pontada de inveja e desânimo. Fui preterido pela Incógnita em favor do Marxóide Promíscuo, quanta humilhação! Dramatizo um pouco, cabe dizê-lo, mas de fato senti-me rebaixado. Não bastasse o estranho charme exercido pelo Marxóide Promíscuo em todas as mulheres, justo a Incógnita tinha que lhe cobrir de elogios! E que elogios! Pois então ele escreve de maneira tão ágil, tão rápida, tão clara e tão inteligente que a Incógnita não apenas lhe sente inveja, como ainda vai-lhe fazer propaganda aos seus professores. Custa-me acreditar que alguém tão mediano quanto o Marxóide Promíscuo possa exercer tão ampla influência sobre as mulheres, mais, sobre as mulheres inteligentes.

Ó Fortuna, se te adivinho bem as intenções, foi um aviso exigindo-me a volta ao claustro. É forçoso reconhecer a inutilidade de rebelar-me contra tua vontade, volúvel deusa, não me resta portanto senão seguir teus desígnios ou libertar-me definitivamente do teu domínio. Que escolha tomar? Submissão ou liberdade? A vida escrava ou a morte nobre?

segunda-feira, junho 09, 2008

Fracasso

Já ia esquecendo. O laço não funcionou. Mas o dia é longo, talvez haja nova chance.

Reminiscências de um tempo não vivido

O correio fez uma entrega ao vizinho da frente. À janela, impressionou-me o tamanho do pacote entregue. A involuntária curiosidade acerca do pacote trouxe-me à mente os romances do séc.XIX. O tamanho do pacote daria conversa para o próximo encontro com os demais vizinhos.

(Ficou péssimo, não deveria postar. Mas quem se importa? É material para O Livro Mais Chato do Mundo)

domingo, junho 08, 2008

[idéia] Déja vu

Escrever conto/adventure de um personagem atormentado por déja vus. Possivelment incluir trama pré-apocalíptica (TFP).

[tagebuch] Déja vu

Incrivelmente sonolento. Deixarei os erros de português à vontade nesta entrada aqui.

Resolvi escrever porque acabei de vivenciar um dos déja vus mais nítidos e amedrontadores que já tive. A verdade é que os tenho senão freqüentemente, pelo menos não raramente, mas eles raramente são nítidos o suficiente para me causarem algum espanto. Eu simplesmente me lembro de já ter vivenciado a situação atual, às vezes me lembro de no passado ter imaginado, ou sonhado, ou mesmo lembrado (!) da situação atual. É uma sensação esquisita, estar fazendo algo e subitamente lembrar que uns tempos atrás ter lembrado de já ter feito um dia aquilo. Hoje foi pior, eu estava lendo um post na ASH, e eu tive certeza absoluta de já o ter lido, eu já sabia o que estava escrito após ler a primeira linha, diabos! Eu estava tão seguro de já ter lido aquilo que logo fechei o leitor de news pensando que eram maçadas essas ressurreições de threads mortas (o infame necrotrheading, no linguajar dos anglos). Logo após fechá-lo fiquei pensando quão velha seria aquela thread, tinha a impressão de ter sido uma das primeiras que li na ASH. Pois bem, fui verificar as datas, e eram todos de dois dias atrás. Eu esperava uns seis meses.

Diabos, está-me o cérebro a pregar peças! Se continuar deste jeito eu logo viro um maluco que acredita em premonição e sei lá mais o quê.

sexta-feira, junho 06, 2008

Fraudada a batalha

Vãs foram as esperanças! Não houve batalha alguma, a missão de reconhecimento afugentou os inimigos e foi vitoriosa. Não haverá tempestade, o frio afugentou o calor sem travar nenhum combate memorável.

Da psicologia IRCiana brasileira

Confesso! Rompi os votos e fui espiar o que falavam as almas que deambulam pelo IRC brasileiro. Como se esperava, surpresa nenhuma: estavam lá a falar das suas experiências sexuais. Os que se dizem homens falando das impressões que lhes causavam as mulheres, as que se dizem mulheres das impressões que lhes causavam os homens. E, como não poderia faltar, os solteiros atirando-se sobre qualquer uma lhes desse atenção. Em meio às confissões sexuais de praxe, logo apareceram o Senhor Google-Copy-Paste e a Velha Mística. Com medo de tal mistura insalubre, parti antes que me morressem de desgosto alguns neurônios.

Mas... estaria lá também a Dama dos Girassóis? Que curiosidade mórbida! Controlo-me, manterei uma distância saudável daquilo lá, afinal, o que de interessante seria ela capaz de dizer?

[Espelho d'alma]

"Do céu tombei aos caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto..." (Alphonsus de Guimaraens. Sonetos)

Uma tempestade se apronta

O céu que estivera azul é paulatinamente recoberto por uma espessa manta cinza. A calmaria deu lugar a um vento constante que uiva como se estivesse anunciando um ataque e em intervalos quase periódicos recrudesce seu assalto com rajadas violentas, como fossem batedores de vanguarda a testar a resistência dos muros. O calor abrasante da manhã bateu em retirada, e aos poucos e com intensidade crescente o frio ocupa o terreno vago. Prepara-se um combate glorioso.

quinta-feira, junho 05, 2008

Do uso rotineiro da palavra 'tedioso'

Intriga-me o uso comum da palavra 'tedioso'. Parece-me que as únicas coisas que o vulgo não considera tediosas são justamente as mais chãs. O que é interessante hoje em dia? O lugar-comum, o fácil, o de cores fortes, o conhecido, o costumeiro. É assombroso como podem distrair-se repetindo pela milésima vez a mesma mesquinharia.

Tratemos das fofocas, da análise psicológica de boteco, das lamentações ignóbeis. As grandes idéias, as grandes paixões, as grandes ações quedam-se bem na lata de lixo.

Nada de nada,

Pois muito bem, vejamos. Meu vício em internete é duro de combater. Meu prazo está pelo fim. A solução derradeira aproxima-se. São cerca de 9:00, veremos se às 21:00 ainda estarei entre os vivos.

* * *

Os TFPeiros estão eriçadíssimos com a desistência da dona Clinton. O maldoso ataque comunista é para já. Eu bem que gostaria de acreditar que o mundo possui só mais um ou dois meses de vida. Mas se em bons períodos já me vai tudo ao revés, quem dirá se a guerra mundial estourasse. De todo modo, não creio nos delírios TFPeiros, apenas divertem-me as visões apocalípticas do presente. Faz parecer que o mundo é um romance de espionagem, dá-lhe um saborzito especial que esconde um pouco a sua feiúra e mesmice.

* * *

Ó Fortuna, prometo-te umas libações de chá verde japonês se me auxiliares um tantinho que seja hoje.

quarta-feira, junho 04, 2008

Do gosto pela mediocridade

Creio estar involuindo. É como se a Fortuna em vez de punir-me com mais e novas misérias tirasse um prazer especial em fazer-me reviver as velhas. Eis-me novamente diante da mediocridade aborrecida das mulheres, do seu gosto pelo papel de mulherzinha e sua paixão por homens que representam bem o seu papel, o papel de cafajeste, sujo, inculto e tolo. Mais uma vez me enoja como elas preferem o riso fácil dos sensaborões, o elogio vazio dos promíscuos, a previsibilidade dos inautênticos. E, claro, vêm depois choramingar contra os homens.

Pego-me pensando se a preferência das mulheres pela sensaboria causa-me alguma inveja oculta, se ser preterido pelos cultores da mediocridade me enche secretamente de algum desgosto profundo e raivoso. Parece-me que não. Que as mulherzinhas gostem de um homão, entende-se. Que mais era de se esperar? Talvez o que me aflija seja antes o fato de não ter encontrado senão mulherzinhas, o fato de que apenas em raras ocasiões eu tenha encontrado mulheres a quem eu pudesse admirar e considerar como iguais. Um par é o que busco, e só encontro bonecas e peças de decoração.

Mas que digo? Acaso busco eu alguma coisa? Não terei aprendido aquela lição primeira dos estóicos, a de abandonar tudo que não seja estritamente meu, que não esteja estritamente sob meu controle? Terei esquecido o exemplo reverendo de Diógenes, que se bastava a si mesmo?

Não. Nada tenho com os personagem de romance do século XIX. O tipo de frustração sexual e comportamento erótico pintado pelos escritores daquela época sempre me pareceu estranho e distante, e não o pareceriam menos agora se eu já não lhes estivesse acostumado, se depois de tantos romances eu já não analisasse a mim mesmo tendo-lhes como ponto de referência.

Representai bem seu papel, mulherzinhas, que eu estou bem cá, só comigo mesmo.

terça-feira, junho 03, 2008

[prêt-à-parler] Da alegria da revolução

"[...] há uma delícia colérica em espedaçar os deveres e as conveniências [...]" (Eça de Queirós. O primo Basílio)

domingo, junho 01, 2008

[tagebuch] É chegado o tempo de um teste

A semana que inicia será uma semana de testes. Uma semana decisiva será.

A fraqueza da vontade é algo que me foi sempre causa de espanto. Se sabemos que uma ação é incorreta, por que mesmo assim a realizamos?! Não parece ser esta uma falha tremenda, abominável mesma da nossa constituição? Sabemos como devemos agir, mas não agimos como sabemos dever. Toda a impressão de que há um Eu profundo sobre o qual não temos poder algum advém daí. A incoerência entre o conhecimento do dever e a ação deveria ser explicada por alguma força oculta, que embora invisível à introspecção, inacessível à consciência, guia todas as nossas ações. Mas qual a justificativa para tal curiosidade, para o desejo de realizar um estudo sistemático e, para alguns, científico do suposto Eu profundo? A que nos levaram as tentativas de cientificizar a fraqueza da vontade, senão àquelas caricaturas grotescas que Zola soube empregar, com maestria, há que dizer, nos seus livros? Lembro da 'Besta Humana', em que a incapacidade do protagonista de controlar seus impulsos assassinos era creditada à essência selvagem, simiesca, coberta por um leve verniz civilizacional, àquele famoso peso de todas as gerações passadas que oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Por que não se aceita simplesmente a fraqueza da vontade como uma componente básica, portanto irredutível a outros processos ou entidades mais simples, da humanidade? Em lugar de fazermos a ciência da fraqueza, ganharíamos mais fazendo-lhe a poesia, aceitando-a como um dos fardos que devemos carregar por este vale de lágrimas, como uma espécie de pecado original que cada um nós herdou do primeiro humano, e do qual só a morte nos pode liberar.

Vejamos como se dará nesta semana derradeira o meu embate com a vontade, o meu embate comigo mesmo.

[prêt-à-parler] Da magreza

A se dizer àquelas belezas magras, que o vulgo com toda a sua rudeza considera feia:

"É duma elegância de tísica" (Eça de Queiroz. O primo Basílio)

sábado, maio 31, 2008

Da adivinhação e da indeterminação das teorias pelos fatos

No capítulo LXXIII do segundo livro do Don Quixote, o bom Cervantes nos dá um ótimo exemplo de como a adivinhação é tola, e de como os fatos por si mesmos nada dizem: uma lebre foge espantada por caçadores, para don Quixote esse é um sinal de que jamais verá Dulcinéia desencantada, para Sancho é um sinal de que Dulcinéia lhe vai ao encontro.

sexta-feira, maio 30, 2008

Suspensão parcial

Acabei de realizar um teste de suspensão parcial. Ainda não encontrei o lugar correto nem a pressão correta , mas o processo parece bem mais simples e tranqüilo do que as suas representações cinematográficas indicam. O mais estranho de tudo foi descobrir que a asfixia possui um caráter erógeno. A asfixia erótica era-me uma completa desconhecida, e se alguém me houvesse falado de tal coisa eu teria dificuldade em acreditar, certamente acabaria adicionando-a ao rol de maluquices que pessoas de sanidade mental duvidável consideram erógenas. A experiência inusitada me levou a uma busca na internete, e ao que parece o efeito erógeno da asfixia realmente é comum. Extremamente curiosos os efeitos da falta e do excesso de oxigênio no cérebro!

[tagebuch] Da decisão derradeira ou why don't I just kill myself?

Durante a insônia que se me acometeu ontem, resolvi finalmente tomar a decisão derradeira. É hora de abandonar a nau dos vivos. Sendo o fracasso meu único sucesso, sendo a estupidez o destino para onde me leva a inteligência, sendo a mesquinharia o resultado da tentativa de nobreza, nada resta que me prenda ao mundo dos vivos. Arte, ciência, religião, amizade, tudo aquilo que justificaria a permanência em vida já foi por mim tentado, tudo foi em vão.

Muitos flutuam miseráveis entre o medo da morte e as tormentas da vida, não querendo viver e não sabendo morrer. Esta sentença maior do velho Sêneca, dentre as tantas que ele proferiu, é o frontispício deste diário. Nunca pensei ser um destes seres perdidos entre o temor da vida e o temor da morte, contudo receio tornar-me um deles se continuar perambulando por entre os vivos. Abraçar a vida ou abraçar a morte, aborreço qualquer opção intermediária! Frustrada a experiência de viver, cabe saber morrer.

A escolha pela morte voluntária está feita, é, porém, de difícil execução. A tola e irracional aversão da nossa sociedade ao suicídio torna complexa aquela que deveria escolha das mais simples e naturais. Não escolhemos nascer, mas sempre podemos escolher morrer. A questão portanto é como abandonar a vida de maneira digna e razoável, dadas as restrições impostas pelo meio social?

Não há, é claro, resposta geral, cada situação específica terá uma resposta que lhe é peculiar. Eu sempre considerei a morte por inanição voluntária a mais nobre das mortes, pois mostra que se tratou de uma decisão razoável e pensada, que poderia ser a todo instante revertida caso houvesse dúvida ou arrependimento. Mais ainda, é morte realizada sem auxílio algum de coisas externas. Enquanto um enforcado usou da forca, o baleado da arma de fogo, o envenenado do veneno, o morto por inanição morreu única e exclusivamente pela sua vontade, sem precisar recorrer a instrumento nenhum.

A inanição é, no entanto, impraticável. Seria preciso semanas de isolamento, que estão fora do meu alcance. Ficara eu duas semanas sem comer, logo alguém percebia e mandava-me para o hospício.

Quais opções me restam? Não muitas. Depois de observar o movimento no alt.suicide.methods e no alt.suicide.holiday decidi-me pelo enforcamento. É muito menos angustiante do que parece, basta saber fazê-lo propriamente.

Tempo de parar, pois, dentre outras coisas, devo praticar com o laço e a maneira de suspender-me corretamente. Ainda é cedo para dizer adeus aos que ficam, mas já passou o tempo de saudar os que já foram.

quinta-feira, maio 29, 2008

[tagebuch] Dos costumes amorosos dos dias que vão

Ontem uma que amei chamou-me lento. Não a traí por ser demasiado lento, eis o que disse ao lastimar-se dos amores passados e de todo o restante do gênero masculino. É curioso que logo eu, o defensor do amor livre, seja um dos poucos que ela afirma não a ter traído. Justo aquele para quem 'traição' é palavra que apresenta pouco sentido e longo desentendimento.

Que dizer? A minha quixotesca constituição da alma não é feita para os dias que vão, talvez seja por isso que tanto me atrai a idéia de seguir o exemplo estóico e ir-me destes dias.

[metatagebuch] Do desfecho do caso girassol

Cometi o erro de reler uma entrada antiga, em que eu, além de perpetrar um vicioso ataque à boa gramática, me desfazia em ilusões acerca da Dama dos Girassóis. Baldado é dizer que as coisas saíram todas erradas. Ela chegou mesmo a mandar-me um email, o qual, conquanto longe daquilo que eu esperava, possibilitava uma resposta galante. A grande falha veio, e de onde mais poderia vir!, da minha inabilidade: só vi a mensagem quando já era passado o tempo oportuno de enviar-lhe uma resposta, portanto fechando-me a oportunidade de iniciar uma troca de correspondências.

Serei justo comigo mesmo, a culpa não foi exclusivamente minha. A Dama dos Girassóis fazia profissão de ser-me mofina, e a mim já não me dava mais gosto algum a sua companhia. Culpa alguma tive eu nisso, considerava-me ela uma espécie de aristocrata de boteco, e um fingidor, e um agressivo. E tudo isso por motivos que jamais fui capaz de alcançar.

Findo o caso girassol com mais um triunfo do fracasso, e não há mais o que ser dito.

Apontamentos casuais sobre uma arqueologia da Procrastinação.

Qual será o nome dado pelos gregos à Procrastinação? Muita graça teria se os antigos também a houvessem personificado, como costumavam fazer com os sentimentos. Não me ocorre, entretanto, ter jamais visto a sua participação na literatura clássica. A Preguiça estava lá, é certo, mas não a Procrastinação. Claro, minha semi-ignorância não me permite tirar a conclusão apressada de que a Procrastinação nunca figurou no panteão greco-latino, mas eu apostaria que não. E acaso não seria para todos os que lhe sofrem os desmandos do mais alto interesse conhecer-lhe as origens míticas e o modo como aqueles sábios sem par que eram os antigos com ela lidavam?

terça-feira, abril 01, 2008

[tagebuch]

Relativo sucesso. O silêncio de internete foi razoavelmente bem, apenas alguns ruídos passaram.

Estou esperando um email da Dama dos Girassóis. Mais do que ter meu email, ela explicitamente pediu-o dizendo que talvez um dia me escrevesse, daí a minha esperança de que um dia ela se resolva a escrever-me. Esperança provavelmente vã, há que o dizer, mas não completamente irracional ou infundada. Ontem completou-se uma semana desde a última vez que nos falamos, e até agora nada. Penso que ela esperava encontrar-me no fim de semana, e isso a demoveu de escrever. Receber agora uma mensagem dela traria um tantinho de alegria a est'alma dilacerada.

segunda-feira, março 31, 2008

Abstinência

Vamos ver quantas horas eu consigo passar sem perder tempo neste antro de imbecilidade que se chama internete.

domingo, março 30, 2008

Desvirciação

Nunca gostei das multidões. É na solidão e nos pequenos grupos conspiratórios e excêntricos que me movo livremente. No entanto uma estranha necessidade de multidão, de alarido, de companhia tinha me assaltado a alma.


Nos últimos meses o IRC passou de mera curiosidade de dias tediosos a necessidade diária imperiosa. Salvas as poucas pessoas boas e instigantes que perambulam por lá, o IRC é uma apenas uma reunião de tolices, mesquinharias e inutilidades. Mesmo os canais mais inteligentes e elitistas revelam apenas especialistas em cultura pop e ninharias, O que lá me prendia? Não consigo imaginar. Serão Ayer e Cervantes melhores companheiros? Tampouco saberia responder, mas ao menos ao gastar meu tempo com eles estarei fazendo algo de que possa me orgulhar, algo que me faça respeitável frente a mim mesmo.


Entro a partir de agora em silêncio de IRC, sempre que me assediar o ímpeto de logar e ler as bobagens que escrevem por lá, lembrarei das velhas lições dos estóicos.

segunda-feira, março 24, 2008

teste

ainda um teste. áéàõ - я говорю по-русский - εποχε

segunda-feira, março 17, 2008

[O livro mais chato do mundo] Elementos para uma introdução

A fim de contribuir com esta imensa pilha de estupidez e sensaboria a que chamam 'internete' [sim, aquele 'e' final não está sobrando], pretendo prosseguir com as atividades aqui. Evidentemente muito pouco pode um blog esquecido e ínfimo fazer para incrementar a taxa global de idiotice, mas em vez de adotar aquela muito nobre e sábia doutrina estóica da resignação, irei ao contrário manter-me firme no caminho da insipidez e lembrar a todos que toda ação individual nossa conta e tem a longo prazo conseqüências. Sim, como diziam os socialistas operários, por mais insignificante que creias ser a tua atividade no seio da classe revolucionária, mesmo as mais modestas ações acabam no final das contas por somar-se e formam aquele gigantesco turbilhão histórico que varrerá o passado da face da Terra e trará o radiante futuro operário, o brilhante futuro em que o sol nunca se porá. Somos todos responsáveis, por mais insignificantes que nos pensemos.

Tendo em vista a gigantesca responsabilidade que pesa sobre cada um de nós, resolvi então fazer a minha parte, e fá-la-ei com o audacioso projeto de escrever o livro mais chato do mundo.