Durante a insônia que se me acometeu ontem, resolvi finalmente tomar a decisão derradeira. É hora de abandonar a nau dos vivos. Sendo o fracasso meu único sucesso, sendo a estupidez o destino para onde me leva a inteligência, sendo a mesquinharia o resultado da tentativa de nobreza, nada resta que me prenda ao mundo dos vivos. Arte, ciência, religião, amizade, tudo aquilo que justificaria a permanência em vida já foi por mim tentado, tudo foi em vão.
Muitos flutuam miseráveis entre o medo da morte e as tormentas da vida, não querendo viver e não sabendo morrer. Esta sentença maior do velho Sêneca, dentre as tantas que ele proferiu, é o frontispício deste diário. Nunca pensei ser um destes seres perdidos entre o temor da vida e o temor da morte, contudo receio tornar-me um deles se continuar perambulando por entre os vivos. Abraçar a vida ou abraçar a morte, aborreço qualquer opção intermediária! Frustrada a experiência de viver, cabe saber morrer.
A escolha pela morte voluntária está feita, é, porém, de difícil execução. A tola e irracional aversão da nossa sociedade ao suicídio torna complexa aquela que deveria escolha das mais simples e naturais. Não escolhemos nascer, mas sempre podemos escolher morrer. A questão portanto é como abandonar a vida de maneira digna e razoável, dadas as restrições impostas pelo meio social?
Não há, é claro, resposta geral, cada situação específica terá uma resposta que lhe é peculiar. Eu sempre considerei a morte por inanição voluntária a mais nobre das mortes, pois mostra que se tratou de uma decisão razoável e pensada, que poderia ser a todo instante revertida caso houvesse dúvida ou arrependimento. Mais ainda, é morte realizada sem auxílio algum de coisas externas. Enquanto um enforcado usou da forca, o baleado da arma de fogo, o envenenado do veneno, o morto por inanição morreu única e exclusivamente pela sua vontade, sem precisar recorrer a instrumento nenhum.
A inanição é, no entanto, impraticável. Seria preciso semanas de isolamento, que estão fora do meu alcance. Ficara eu duas semanas sem comer, logo alguém percebia e mandava-me para o hospício.
Quais opções me restam? Não muitas. Depois de observar o movimento no alt.suicide.methods e no alt.suicide.holiday decidi-me pelo enforcamento. É muito menos angustiante do que parece, basta saber fazê-lo propriamente.
Tempo de parar, pois, dentre outras coisas, devo praticar com o laço e a maneira de suspender-me corretamente. Ainda é cedo para dizer adeus aos que ficam, mas já passou o tempo de saudar os que já foram.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário