Clara dos Anjos, de Lima Barreto, foi terminado em 1922, mas só foi publicado postumamente, em 1948.
A linguagem usada por Lima Barreto é simples, suas construções, vocabulário, períodos, não parecem ter nenhum atrativo lingüístico especial, nada altissonante, raro, precioso, lento. É simples, direto, popular, quase transparente, mas não é certamente simplório, vazio, vulgar ou insignificante, pelo contrário, é um linguajar bem-tratado, escolhido conscientemente e finamente polido. Lima Barreto usa, contudo, como regra separar os adjuntos adverbiais, especialmente as locuções, e muitas das conjunções por vírgulas, causando-lhes uma profusão que reduz um tanto a velocidade do texto, mas não o torna vagaroso, nem mesmo lento, apenas diminui desnecessariamente a velocidade. A narrativa, com narrador onisciente, encontra um equilíbrio invejável, entre as descrições físicas, psicológicas e sociológicas, já dos personagens, já do meio. Nem detalhismo nem simplismo excessivo, nem preponderância desequilibrante de um ou outro aspecto, isto é, não se concentra particularmente em um aspecto do meio ou dos personagens, mas conduz a narrativa com leveza e transparência.
Desenrola-se a ação quase inteiramente em um subúrbio do Rio de Janeiro, com a sua miséria, e os pobres homens que se vêem obrigados a morar ali. Mais do que um romance centrado em um ou dois personagens, Lima Barreto apresenta uma galeria destes seres moídos pela fortuna, que tentam sobreviver como podem nos restos esquecidos do subúrbio. Apesar da crítica social evidente, Lima Barreto não é conivente com os miseráveis nem faz a crítica fácil dos poderosos, parece mostrar homens de verdade, submersos na miséria de verdade, mas homens sobretudo.
A história parece simples e banal, e serve especialmente de fio condutor em torno do qual Lima Barreto traça o retrato do subúrbio e da sua gente. Cassi é um vagabundo violeiro, que vive de trambiques e brigas de galo, que se notabilizou pela extensa lista de seduções e ?desonras? de mulheres de todos os tipos. Antes de fugir para São Paulo, problemas com a polícia e inimigos não lhe faltavam, faz como sua última vítima Clara dos Anjos, filha superprotegida de um carteiro cuja ignorância é a principal culpada da sua desgraça.
O livro é de uma força surpreendente, um verdadeiro tapa. Lembra sem dúvida os filmes neo-realistas, uma descrição da gente miserável e da sua condição miserável. Marcante ainda é a melancolia e a desesperança, que o tornam ainda mais vigoroso e violento.
domingo, julho 11, 2004
Prêt-à-parler
A dizer quando uma beldade pede desculpas por se ter intrometido:
Schönheit ist überall ein gar willkommener Gast. (Goethe. Die Wahlverwandtschaften)
Schönheit ist überall ein gar willkommener Gast. (Goethe. Die Wahlverwandtschaften)
Prêt-à-parler
A dizer aos utópicos:
"Você, Alípio, se diz anarquista; mas o que você é, é romancista. Isto é um romance" (Lima Barreto. Clara dos Anjos, V)
"Você, Alípio, se diz anarquista; mas o que você é, é romancista. Isto é um romance" (Lima Barreto. Clara dos Anjos, V)
Do Tédio
O tédio que nos domina conseguiu o prodígio que nem a mais detestável religião, filosofia ou política conseguiu: tornar-nos aborrecida a natureza e, por conseguinte, nós mesmos. Abafam-nos ainda os burgueses e os regulamentos...
"-Que beleza! Que beleza! Quero respirar, cheirar, absorver todo o perfume desse divino crepúsculo... Não fora a natureza, os céus, os pássaros, as águas múrmuras, como poderíamos viver?
Depois de uma pausa, acrescentou desolado:
-A vida é tão banal, tão chata... Nós somos também natureza; mas do que nos vale isto? Há os burgueses e os regulamentos que nos abafam..." (Lima Barreto. Clara dos Anjos, X)
"-Que beleza! Que beleza! Quero respirar, cheirar, absorver todo o perfume desse divino crepúsculo... Não fora a natureza, os céus, os pássaros, as águas múrmuras, como poderíamos viver?
Depois de uma pausa, acrescentou desolado:
-A vida é tão banal, tão chata... Nós somos também natureza; mas do que nos vale isto? Há os burgueses e os regulamentos que nos abafam..." (Lima Barreto. Clara dos Anjos, X)
quinta-feira, julho 01, 2004
Do Suicídio
A morte voluntária é um presente divino!
'Malum est in necessitate uiuere, sed in necessitate uiuere necessitas nulla est.' Quidni nulla sit? patent undique ad libertatem uiae multae, breues faciles. Agamus deo gratias quod nemo in uita teneri potest: calcare ipsas necessitates licet. (Sêneca. Cartas a Lucílio, livro I, carta XII)
'Malum est in necessitate uiuere, sed in necessitate uiuere necessitas nulla est.' Quidni nulla sit? patent undique ad libertatem uiae multae, breues faciles. Agamus deo gratias quod nemo in uita teneri potest: calcare ipsas necessitates licet. (Sêneca. Cartas a Lucílio, livro I, carta XII)
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