sexta-feira, maio 30, 2003

Da Justiça

"Vous savez qu'elle marche avec tant de langueur,
Qu'assez souvent le crime échappe à sa longueur ;
Son cours lent et douteux fait trop perdre de larmes." (Corneille. Le Cid, ato III, cena II)

quinta-feira, maio 29, 2003

Pílula Poética situacionista

Contra todo sacrifício, contra o tédio! Pela reconquista da vida quotidiana!

“Mon coeur outré d’ennuis n’ose rien espérer” (Corneille. Le Cid, ato II, cena III)
Estupidez em sílabas

Exemplo de uma mal-sucedida sessão de escrita automática

-Ora, pergunto-me, que faço aqui?
-Faço, respondo-me, o que fazia ainda antes de fazê-lo.
-Mui irritado estou com as minhas divagações, digo-me com severidade.
-Calo-me se capaz for, retruco-me com truculência.

Após a eternidade decido-me então a fazer.

terça-feira, maio 27, 2003

Kantilenas Kantianas

Talvez o fim último do primeiro kanto das Kantilenas

Todos os princípios de origem transcendental são precisamente espécies de intuição dos mesmos.

segunda-feira, maio 26, 2003

Aristóteles, Platão, e o bem-em-si

Escrito sob a ameaça de um cano de revólver enconstado na têmpora direita

Aristóteles, como bem se sabe, foi discípulo de Platão, portanto, quando menciona na sua obra a existência de um bem supremo não seria estranho se, de algum modo, se este sumo bem fosse confundido com a Idéia de bem dos platônicos. Contudo, o bem supremo aristotélico e o Bem platônico são noções muito diferentes, e é o próprio Aristóteles que procura explicitar esta diferença no primeiro livro da Ética a Nicômaco.

A idéia de um Bem em si, uma forma pura e única, situada num mundo inteligível, da qual todos os bens particulares participam, e que só por isso reconhecemo-los como bens, era para o estagirita algo muito improvável. A crítica dele fundamenta-se essencialmente no seguinte argumento: não é possível existir uma forma única de bem, pois o bem não é um conceito universal, ou seja, não existe um conceito genérico de bem no qual estejam contidos os conceitos de todos os bens particulares. Ora, olhando com atenção, percebe-se que o termo “bem” é usado de muitas maneiras diferentes, entre “nadar bem”, “uma boa mesa” e “uma boa amizade” é realmente difícil, senão impossível, encontrar algo que seja comum a estes bens, afinal, as características que tornam uma mesa boa são certamente bem distintas das que tornam uma amizade boa, isto é, este algo que torna as coisas boas é específico para cada tipo de coisa. Deste modo, pode-se mesmo verificar que “o termo ‘bem’ tem tantas acepções quanto ‘ser’” (EN, 1096a). Ou, numa terminologia mais técnica, o bem não é um gênero, posto que é predicado de todas as categorias. Assim, usando os exemplos dados por Aristóteles, o bem pode ser predicado de uma substância, como de Deus, ou ainda da categoria de qualidade, como as excelências, da de quantidade, como o que é moderado, da de relação, com o útil, da de tempo, como o tempo oportuno, da de lugar, como a localidade conveniente, e assim por diante. Portanto o bem não pode ser algo universal e único, pois para sê-lo deveria ser predicado de apenas uma categoria.

Além disso, como há uma ciência correspondente a cada Idéia, deveria haver uma ciência única do bem, entretanto, o fato é que existem diversas ciências, mesmo do bem em uma determinada categoria. A localidade adequada é estudada, na guerra, pela estratégia, mas também, na construção, pela arquitetura. Mesmo nos bens que são bons em si, desejados por si mesmos, como a inteligência e as honrarias, não se consegue encontrar uma noção comum que os englobe. Por fim, resta ainda uma questão, se de fato existem diversos bens, uns distintos dos outros, como que lhes aplicamos o mesmo nome? Nós chamamos a todos de bem, e certamente não é por acaso que assim procedemos. Aristóteles nos dá três alternativas, das quais uma parece ser a mais correta. Chamamos os diversos bens da mesma maneira, não porque sejam uma só coisa, mas por analogia. Por exemplo, assim como a visão é boa no corpo, a razão é boa na alma.

Aristóteles refuta assim a Idéia universal e única de bem, cabe-lhe então apresentar o seu próprio conceito de bem. Ao contrário de Platão, que parte do inteligível para o sensível, Aristóteles procurará fundamentar a sua noção de bem a partir das coisas mesmas. Partindo daí, notará que toda atividade, todo propósito visa algum fim, e esse fim é algum bem, já que os homens realizam as ações buscando algum bem. Claro que, como foi dito, cada atividade terá em vista um bem diferente, contudo, se há um fim a que todas as coisas visam, este será o melhor fim, ou o bem supremo. Sendo assim, é preciso que este último fim seja algo desejável por si mesmo, sendo tudo o mais desejado em função dele, pois caso contrário cair-se-ia numa sucessão infinita que acabaria por pulverizar e desfazer o próprio bem. Das coisas que aparentam ser desejáveis por si mesmas, a felicidade parece ocupar o mais alto grau, já que não a perseguimos para alcançar outra coisa que não ela mesma, não temos nenhum outro objetivo em alcançar a felicidade senão sermos felizes.

A noção aristotélica de bem supremo e a platônica de bem em si são, portanto, incompatíveis. Platão coloca fora do mundo um único e universal Bem, do qual todos os bens particulares participam. Por sua vez, Aristóteles vê que não é possível reunir todos os bens dentro de um único conceito de bem, já que o bem pode ser predicado de tantas categorias quanto o ser. Destarte, só podemos falar de bem por analogia. O bem supremo é, então, um bem que é bom em si, e ao qual todos os outros bens são subordinados, mas que é algo diferente e separado destes outros bens.
Kantilenas Kantianas

mais alguns versos a priori

Alguma coisa possível não possui em si filosofia.

Proposições estéticas transcendentais são provas precedentes.

A anfibologia dos conceitos denomina-se ente.

Um fenômeno mantém uma autoridade em si mesmo.

As proposições apodídicas entendem a prova cosmológica.

O repetido acréscimo não é o conceito de possível.

domingo, maio 25, 2003

Pílulas Poéticas

Do místico Cocteau:

Um único copo d'água ilumina o mundo
Kantilenas Kantianas

Fragmentos a priori de uma kanção surrealo-crítica da razão pura.

A existência de um ente necessário se renova acima dos limites de toda experiência possível.

O fenômeno tem em nós o segundo.

Frente a isso, o oponente da religião é definido na conclusão de um silogismo.

Exemplo não se trata de lógica.

O primeiro objeto de uma tal idéia entende todo o seu indiminuto valor.

A realidade da liberdade não chega nem a ter o modo.

A tarefa da Metafísica consegue indicar o fim anteriormente proposto sem reflexão.

sábado, maio 17, 2003

Silogística Aristotélica

Silogismos classificados como válidos pelo próprio:

1a. figura: BARBARA, CELARENT, DARII, FERIO.
2a. figura: CESARE, CAMESTRES, FESTINO, BAROCO.
3a. figura: DATISI, DISAMIS, DARAPTI, FERISON, FELAPTON, BOCARDO.
Cinna, de Corneille

Nesta peça o grande clássico francês mostra toda a sua força, toda a sua genialidade. Em impecáveis versos a clemência de Augusto é ilustrada, assim como todas as asquerosas idéias de seu autor.

Emília é filha de C. Toranius, antigo tutor de Augusto, cuja proscrição pelo próprio imperador faz-lhe nascer um inquebrantável ódio, que só aumenta quando ela é adotada pelo imperador como filha. A vingativa nova filha de Otávio convence, ou seduz, Cinna, filho de Pompeu, o seu amante, a liderar uma conspiração contra Otaviano. Cinna, por sua vez, também é um dos preferidos do tirano, mas em vez de detestá-lo, como seu parentesco faria crer, tem-lhe sentimentos amistosos, não só ao tirano, mas também à tirania. Dá-se aí o primeiro conflito, Cinna vê-se dividido entre a chama do amor e a sua amizade e gratitude. Mas é o fogo das paixões, incitado por Emília, que se alastra e aniquila a consciência moral de Cinna. Isto é, as mulheres, intrinsecamente más, corrompem os homens, afastando-os do reto caminho. E assim também as paixões, igualmente más, além de dominantes na mulher, subjugam a razão e transformam o homem numa besta qualquer.

Contudo, esta avalanche de irracionalidade será contida pela clemência do déspota. Máximo, íntimo amigo de Cinna e líder da conjuração, também é apaixonado por Emília. Quando o pompeida confessa que somente a lidera por amor a Emília, Máximo é tomado pelos ciúmes e, encorajado por seu lacaio, torna-se um traidor, esperando que, com a morte de Cinna, seja-lhe mais fácil conquistar o amor de Emília. Assim o ditador é prevenido da conspiração, mas, em toda a sua bondade cristã, acaba por perdoar Cinna, Emília e Máximo. A luminosa clemência do monarca livra das trevas as almas reféns das paixões, levando-as ao bom caminho.

Não há como negar, a peça de Corneille é sublime, perfeita, plena. Qual será o segredo que faz com que uma peça com mensagens tão repugnantes seja ao mesmo tão bela e arrebatadora?
Contra a autoridade, contra o determinismo

"Cet amour qui m'expose à vos ressentiments
N'est point le prompt effet de vos commandements;
Ces flammes dans nos couers sans votre ordre étaient nées,
Et ce sont des secrets de plus de quatre années;" (Corneille. Cinna, ato V, cena II).
Razão vs. Paixão, ou, um pouco de platonismo

Emilia lutando contra as suas paixões:

"Durant quelques moments souffrez que je respire,
Et que je considère, en l'état où je suis,
Et ce que je hasarde, et ce que je poursuis," (Corneille. Cinna, ato I, cena I).