Anotações de um Cético
"Ora, se conhecemos por experiência que eles [os sentidos] nos enganam, com respeito à superfície do globo no qual nos encontramos [...]" (Giodarno Bruno. Sobre o Infinito, Diálogo Primeiro)
Os nossos sentido não nos enganam, é o discurso que fazemos acerca do que os sentidos apresentam-nos que é enganoso. A partir de uma altura suficiente a visão mostrar-nos-á claramente a curvatura da terra, apesar de ela não nos ser aparente nas alturas em que os homens normalmente têm acesso. Isso significa que os sentidos mentem? Que se contradizem dizendo ora que a terra é plana e ora que a terra é curva? Ou será que foi uma opinião apressada afirmar categoricamente que a terra é plana?
Mais acima Sr. Bruno diz:
"Não são os sentidos que percebem o infinito, não é pelos sentidos que chegamos a esta conclusão, porque o infinito não pode ser objeto dos sentidos"
Ora, chegamos à conclusão do infinito partindo de dados fornecidos pelos nossos sentidos, isto é, a noção de espaço e da matemática. O infinito não é imediatamente reconhecível pelos sentidos, mas lhe é completamente subordinado.
sábado, dezembro 28, 2002
sexta-feira, dezembro 27, 2002
Envergonhadas linhas verspertinas
Abate-se-me a força irresistível da Preguiça. Acabo de ler duas obras geniais, basilares, uma do pensamento ocidental moderno, outra da brasilidade enfim encontrada consigo mesma, e que faço com a multitude de idéias, intuições, inspirações, que graciosamente me deram tais marcos sobrenadantes em genialidade? Nada. Ou quase nada, desconsiderando-se algumas anotações sem graça perdidas em algum canto.
Poderia, com o dedo em riste, acusar a nefanda época do ano em que estamos, a mediocridade deprimente do simulacro da festa do sol invictus, pela qual acabamos de passar, e a lascinante estupidez absolutamente insípida do fim do ano cristão, que caminha até nós a passos largos. Seriam bons culpados, qualquer miserável júri popular absolver-me-ia. Contudo, dirá um valoroso aristocrata, só os fracos choramingam. Aceito o desafio e culpo-me a mim mesmo, nada de jogar a culpa do tédio que nos domina em quem quer que seja. Não passamos de poeira, é verdade, somos produtos históricos, é verdade, somos escravos do subconsciente, é verdade, não temos como escapar da cultura que nos cerca, também é verdade. Porém é uma verdade muito mais fundamental que do restinho de livre-arbítrio que sobra após descontadas todas essas restrições, é possível subvertê-las todas. O ínfimo grãozinho de independência que possuímos é mais pujante do que a montanha de determinantes que nos oprime.
Sendo assim, com a devida humildade assinalo este período de mais vil mediocridade e caminho adiante. Como cantava o cancioneira da revolução chilena: Caminando, caminando/ voy buscando libertad/ ojalá encuentre camino/ para seguir caminando.
Abate-se-me a força irresistível da Preguiça. Acabo de ler duas obras geniais, basilares, uma do pensamento ocidental moderno, outra da brasilidade enfim encontrada consigo mesma, e que faço com a multitude de idéias, intuições, inspirações, que graciosamente me deram tais marcos sobrenadantes em genialidade? Nada. Ou quase nada, desconsiderando-se algumas anotações sem graça perdidas em algum canto.
Poderia, com o dedo em riste, acusar a nefanda época do ano em que estamos, a mediocridade deprimente do simulacro da festa do sol invictus, pela qual acabamos de passar, e a lascinante estupidez absolutamente insípida do fim do ano cristão, que caminha até nós a passos largos. Seriam bons culpados, qualquer miserável júri popular absolver-me-ia. Contudo, dirá um valoroso aristocrata, só os fracos choramingam. Aceito o desafio e culpo-me a mim mesmo, nada de jogar a culpa do tédio que nos domina em quem quer que seja. Não passamos de poeira, é verdade, somos produtos históricos, é verdade, somos escravos do subconsciente, é verdade, não temos como escapar da cultura que nos cerca, também é verdade. Porém é uma verdade muito mais fundamental que do restinho de livre-arbítrio que sobra após descontadas todas essas restrições, é possível subvertê-las todas. O ínfimo grãozinho de independência que possuímos é mais pujante do que a montanha de determinantes que nos oprime.
Sendo assim, com a devida humildade assinalo este período de mais vil mediocridade e caminho adiante. Como cantava o cancioneira da revolução chilena: Caminando, caminando/ voy buscando libertad/ ojalá encuentre camino/ para seguir caminando.
Notícias da Democracia
As liberdades democráticas e a proteção aos direitos humanos estão a todo vapor no país mais democrático do mundo.
Jornal dos EUA acusa a CIA de
prática de tortura em árabes
WASHINGTON - A CIA, agência encarregada de obter informações sobre supostos membros da rede al-Qaeda detidos em todo o mundo, conduz interrogatórios no limite da tortura nos países árabes, denunciaram testemunhas ao jornal "The Washington Post".
Em meio a interrogatórios secretos, os "prisioneiros de guerra" experimentam há meses as conseqüências da "face dura" dos Estados Unidos. Os detidos, mantidos em pé ou ajoelhados durante horas, são impedidos de dormir e intimidados psicologicamente.
Muitas vezes são convencidos de que foram levados a outro país e estão nas mãos da polícia de um governo inescrupuloso qualquer, habituado a submeter seus prisioneiros a torturas.
O jornal colheu relatos anônimos de agentes secretos norte-americanos e europeus envolvidos nos interrogatórios e levantou o véu que recaía sobre as práticas utilizadas pelos Estados Unidos no afã de obter resultados concretos em sua "guerra contra o terrorismo".
Há cerca de um ano, a CIA decidiu ter menos escrúpulos no respeito aos direitos humanos e, com todos os detidos considerados particularmente "duros", resolveu aplicar um método passível de críticas: entrega os suspeitos a países árabes nos quais a tortura é uma prática habitual.
Aparentemente, a linha dura começa a trazer resultados significativos, já que nos últimos meses foram detidos ou assassinados alguns supostos líderes da al-Qaeda, na maioria dos casos, graças a dados obtidos nesses interrogatórios.
Desde 11 de setembro de 2001, calcula-se que cerca de 3.000 supostos seguidores ou acusados de respaldar a rede de Osama bin Laden foram detidos pelos EUA, dos quais 625 encontram-se atualmente na base militar norte-americana de Guantánamo, Cuba, privados de assistência e direitos legais.
Porém, a Cruz Vermelha e grupos de jornalistas puderam documentar nos últimos meses as condições dos detidos em Guantánamo. O mesmo não ocorre nos casos dos prisioneiros detidos em áreas protegidas na base aérea de Bagram, Afeganistão, ou na ilha Diego Garcia, no Oceano Índico.
É nesses lugares que a CIA, de acordo com as revelações do "The Washington Post", utiliza métodos para obter informações de acordo com uma linha de "tensão e dureza".
Para vencer a resistência dos detidos, eles são encapuzados e obrigados a permanecer durante horas em posições incômodas ou impedidos de dormir. Como forma de "recompensa", quem colabora participa de "interrogatórios amigáveis" e goza de respeito aos direitos humanos e sensibilidade cultural. Alguns recebem até dinheiro.
Mas para quem resiste as conseqüências são duras. Como num filme de Hollywood, a CIA faz com que os prisioneiros acreditem que foram levados a países árabes onde torturas são comuns, com a intenção de intimidá-los. Em outros casos, são interrogados e humilhados por agentes femininas, uma experiência psicologicamente devastadora para homens pertencentes a culturas islâmicas.
Quando a CIA não consegue as informações que busca, deixa o "trabalho sujo" para países como Jordânia, Arábia Saudita, Egito, Marrocos, Iêmen e, em pelo menos um caso, Síria, cujo governo é considerado hostil por Washington. Nesses países, os prisioneiros são submetidos a métodos de interrogatório que incluem substâncias químicas como o pentothal, uma espécie de "soro da verdade", capaz de vencer as resistências mentais. A CIA preferiu não comentar a reportagem do "The Washington Post", que confirma suspeitas levantadas já há algum tempo.
As liberdades democráticas e a proteção aos direitos humanos estão a todo vapor no país mais democrático do mundo.
Jornal dos EUA acusa a CIA de
prática de tortura em árabes
WASHINGTON - A CIA, agência encarregada de obter informações sobre supostos membros da rede al-Qaeda detidos em todo o mundo, conduz interrogatórios no limite da tortura nos países árabes, denunciaram testemunhas ao jornal "The Washington Post".
Em meio a interrogatórios secretos, os "prisioneiros de guerra" experimentam há meses as conseqüências da "face dura" dos Estados Unidos. Os detidos, mantidos em pé ou ajoelhados durante horas, são impedidos de dormir e intimidados psicologicamente.
Muitas vezes são convencidos de que foram levados a outro país e estão nas mãos da polícia de um governo inescrupuloso qualquer, habituado a submeter seus prisioneiros a torturas.
O jornal colheu relatos anônimos de agentes secretos norte-americanos e europeus envolvidos nos interrogatórios e levantou o véu que recaía sobre as práticas utilizadas pelos Estados Unidos no afã de obter resultados concretos em sua "guerra contra o terrorismo".
Há cerca de um ano, a CIA decidiu ter menos escrúpulos no respeito aos direitos humanos e, com todos os detidos considerados particularmente "duros", resolveu aplicar um método passível de críticas: entrega os suspeitos a países árabes nos quais a tortura é uma prática habitual.
Aparentemente, a linha dura começa a trazer resultados significativos, já que nos últimos meses foram detidos ou assassinados alguns supostos líderes da al-Qaeda, na maioria dos casos, graças a dados obtidos nesses interrogatórios.
Desde 11 de setembro de 2001, calcula-se que cerca de 3.000 supostos seguidores ou acusados de respaldar a rede de Osama bin Laden foram detidos pelos EUA, dos quais 625 encontram-se atualmente na base militar norte-americana de Guantánamo, Cuba, privados de assistência e direitos legais.
Porém, a Cruz Vermelha e grupos de jornalistas puderam documentar nos últimos meses as condições dos detidos em Guantánamo. O mesmo não ocorre nos casos dos prisioneiros detidos em áreas protegidas na base aérea de Bagram, Afeganistão, ou na ilha Diego Garcia, no Oceano Índico.
É nesses lugares que a CIA, de acordo com as revelações do "The Washington Post", utiliza métodos para obter informações de acordo com uma linha de "tensão e dureza".
Para vencer a resistência dos detidos, eles são encapuzados e obrigados a permanecer durante horas em posições incômodas ou impedidos de dormir. Como forma de "recompensa", quem colabora participa de "interrogatórios amigáveis" e goza de respeito aos direitos humanos e sensibilidade cultural. Alguns recebem até dinheiro.
Mas para quem resiste as conseqüências são duras. Como num filme de Hollywood, a CIA faz com que os prisioneiros acreditem que foram levados a países árabes onde torturas são comuns, com a intenção de intimidá-los. Em outros casos, são interrogados e humilhados por agentes femininas, uma experiência psicologicamente devastadora para homens pertencentes a culturas islâmicas.
Quando a CIA não consegue as informações que busca, deixa o "trabalho sujo" para países como Jordânia, Arábia Saudita, Egito, Marrocos, Iêmen e, em pelo menos um caso, Síria, cujo governo é considerado hostil por Washington. Nesses países, os prisioneiros são submetidos a métodos de interrogatório que incluem substâncias químicas como o pentothal, uma espécie de "soro da verdade", capaz de vencer as resistências mentais. A CIA preferiu não comentar a reportagem do "The Washington Post", que confirma suspeitas levantadas já há algum tempo.
segunda-feira, dezembro 23, 2002
Advertência de um morto aos zumbis que se arrastam na superfície
"Foge do que é ínfimo" (Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. cap. XXVIII)
Existe conselho melhor do que esse? No mundo dos especialistas, das ninharias, do falso, mundo onde não há nada a perseguir. Mundo onde está morta a grandiosidade da ciência, a imensidão da arte, a insondável profundidade da filosofia, a inimaginável altura da religião, o gigantismo da utopia. Em face do mundo das ninharias, FOGE DO QUE É ÍNFIMO!"
"Foge do que é ínfimo" (Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. cap. XXVIII)
Existe conselho melhor do que esse? No mundo dos especialistas, das ninharias, do falso, mundo onde não há nada a perseguir. Mundo onde está morta a grandiosidade da ciência, a imensidão da arte, a insondável profundidade da filosofia, a inimaginável altura da religião, o gigantismo da utopia. Em face do mundo das ninharias, FOGE DO QUE É ÍNFIMO!"
Questões aos cristãos
"os fundadores da religião cristã, fazendo profissão de uma maravilhosa simplicidade, eram os inimigos mais declarados do estudo das ciências" (ERASMO. O Elogio da Loucura. Ed. Martin Claret. p.111)
Quanto mais arcaicas as coisas, mais verdeiras?
O cristianismo autêntico, não o fantasma que hoje se faz passar por cristianismo, não seria o que efetivamente fora, isto é, um feroz inimigo da ciência? E mais, por que os "cristãos" contemporâneos têm vergonha disso? Por que fazem a apologia e não o elogio da sua crença?
"os fundadores da religião cristã, fazendo profissão de uma maravilhosa simplicidade, eram os inimigos mais declarados do estudo das ciências" (ERASMO. O Elogio da Loucura. Ed. Martin Claret. p.111)
Quanto mais arcaicas as coisas, mais verdeiras?
O cristianismo autêntico, não o fantasma que hoje se faz passar por cristianismo, não seria o que efetivamente fora, isto é, um feroz inimigo da ciência? E mais, por que os "cristãos" contemporâneos têm vergonha disso? Por que fazem a apologia e não o elogio da sua crença?
Auto-repreensão
Estava prestes a publicar quando o pestilento Windows subitamente travou. Vapores infernais inundaram-me, as Eríneas sopravam virulentas aos meus ouvidos incitações ao ódio e à violência, já imaginava todos os suplícios pelos quais faria Messer Gates passar, quando me dei conta de que a culpa era inteiramente minha. Não deveria estar usando o gaguejante Windows, rendi-me ao jogo do Espetáculo, sofri as conseqüências.
E o que iria publicar perdeu-se definitivamente em meio às sinapses deste modesto sistema nervoso.
Estava prestes a publicar quando o pestilento Windows subitamente travou. Vapores infernais inundaram-me, as Eríneas sopravam virulentas aos meus ouvidos incitações ao ódio e à violência, já imaginava todos os suplícios pelos quais faria Messer Gates passar, quando me dei conta de que a culpa era inteiramente minha. Não deveria estar usando o gaguejante Windows, rendi-me ao jogo do Espetáculo, sofri as conseqüências.
E o que iria publicar perdeu-se definitivamente em meio às sinapses deste modesto sistema nervoso.
domingo, dezembro 22, 2002
Senhor, livrai-nos do tédio que nos domina e deixai-nos cair em tentação, ou, Domingo, o sepulcro da criatividade
Depois de lentamente virar as páginas do Elogio da Loucura, enquanto o vazio expandia-se na minha sonolenta mente, chego à conclusão: é preciso guardar os dias santos.
Será o marasmo dominical a prova da existência do deus cristão?
Depois de lentamente virar as páginas do Elogio da Loucura, enquanto o vazio expandia-se na minha sonolenta mente, chego à conclusão: é preciso guardar os dias santos.
Será o marasmo dominical a prova da existência do deus cristão?
sábado, dezembro 21, 2002
Notas sobre o paraíso da razão
"Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que porporcionam aos mortais"(ERASMO. O Elogio da Loucura. Ed. Martin Claret. p.30)
Quanto se fala do atrocidade nazista costuma-se falar da loucura nazista. Ledo engano, o horror nazista não foi apenas o Triumph des Willens, mas também o Triumph der Erklärung. Não foi a loucura, mas a razão a grande cúmplice dos horrores do III Reich.
Mais claro ainda fica quando olhamos para os primos mais velhos dos nazistas, os bolcheviques. Houve algo mais racional do que o Estado Bolchevique? Não era ele justamente a encarnação do Estado Racional de Fichte?
"Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que porporcionam aos mortais"(ERASMO. O Elogio da Loucura. Ed. Martin Claret. p.30)
Quanto se fala do atrocidade nazista costuma-se falar da loucura nazista. Ledo engano, o horror nazista não foi apenas o Triumph des Willens, mas também o Triumph der Erklärung. Não foi a loucura, mas a razão a grande cúmplice dos horrores do III Reich.
Mais claro ainda fica quando olhamos para os primos mais velhos dos nazistas, os bolcheviques. Houve algo mais racional do que o Estado Bolchevique? Não era ele justamente a encarnação do Estado Racional de Fichte?
Apontamentos de Paleoantropologia
“Assim também a mulher é sempre mulher, isto é, louca, seja qual for a máscara sob a qual se apresente.” (ERASMO. O Elogio da Loucura. Ed. Martin Claret. p.29)
Isso me faz lembrar do Jeu d’Adam, foi a loucura da mulher que tirou os homens do paraíso. Não se trata de um ataque, mas do maior elogio possível. A chatice regrada, tola e submissa do homem tê-lo-ia feito permanecer eternamente na condição de irracional no paraíso, foi a loucura espontânea, alegre, curiosa, desafiadora, corajosa da mulher que nos fez provar o fruto da árvore da ciência e tornarmo-nos humanos.
A história é uma verdade que paulatinamente mostra-se uma enorme mentira, enquanto o mito é uma mentira que progressivamente apresenta-se como uma suprema verdade, dizia com acerto um dos surrealistas mitologizantes cujo nome escapou-me.
Quereis saber a origem da humanidade? Olhai para a sublime loucura das mulheres. O patriarcado foi o maior crime da história; frente à desumanização ultra-racional do capital, só a loucura do matriarcado nos pode salvar.
“Assim também a mulher é sempre mulher, isto é, louca, seja qual for a máscara sob a qual se apresente.” (ERASMO. O Elogio da Loucura. Ed. Martin Claret. p.29)
Isso me faz lembrar do Jeu d’Adam, foi a loucura da mulher que tirou os homens do paraíso. Não se trata de um ataque, mas do maior elogio possível. A chatice regrada, tola e submissa do homem tê-lo-ia feito permanecer eternamente na condição de irracional no paraíso, foi a loucura espontânea, alegre, curiosa, desafiadora, corajosa da mulher que nos fez provar o fruto da árvore da ciência e tornarmo-nos humanos.
A história é uma verdade que paulatinamente mostra-se uma enorme mentira, enquanto o mito é uma mentira que progressivamente apresenta-se como uma suprema verdade, dizia com acerto um dos surrealistas mitologizantes cujo nome escapou-me.
Quereis saber a origem da humanidade? Olhai para a sublime loucura das mulheres. O patriarcado foi o maior crime da história; frente à desumanização ultra-racional do capital, só a loucura do matriarcado nos pode salvar.
Retificação, ou seria Redenção?
A primeira vez que as escutei, as Partitas para teclado de Bach pareceram-me ignóbeis sons disjuntos, explosão sem sentido de tédio, agrupamento enojante de estúpidos sonzinhos separados. Hoje esses ignóbeis sonzinhos enojantes apresentam-se-me como a expressão do divino, obra transcendente, relance da beleza pura, como a própria techne roubada do Olimpo. Lágrimas vêm-me aos olhos.
Miserere nostri!
A primeira vez que as escutei, as Partitas para teclado de Bach pareceram-me ignóbeis sons disjuntos, explosão sem sentido de tédio, agrupamento enojante de estúpidos sonzinhos separados. Hoje esses ignóbeis sonzinhos enojantes apresentam-se-me como a expressão do divino, obra transcendente, relance da beleza pura, como a própria techne roubada do Olimpo. Lágrimas vêm-me aos olhos.
Miserere nostri!
O Estrangeiro, de Plínio Salgado
O Estrangeiro, publicado em 1926 é, sem dúvida, uma das nossas grandes obras modernistas. Todas as características do (anti)romance moderno ali estão, formando um todo harmônico e desvelando uma outra face da agitação cultural que chacoalhara o Brasil e o mundo na primeira metade do século XX.
O livro conta a história da industrialização e da imigração paulista, imigrantes que enriquecem e modernizam o Brasil arcaico, acuando os nativos caboclos para os recantos do interior, trazendo, ou renovando e fortalecendo os já existentes vícios estrangeiros. A história gravita em torno de Ivã, um revolucionário russo que migra para São Paulo em busca de um novo mundo, original, bárbaro, livre das restrições da velha Europa. Passa, junto com os italianos, pela lavoura de café e acaba tornando-se um industrial. No entanto descobre que o Novo Mundo não é senão uma extensão, uma cópia do Velho, que ele mesmo reconstruía aqui tudo o que odiara na sua pátria, que a possibilidade de enriquecimento, de “ascensão” aqui, então, existentes fazem parte do mesmo movimento que destruira a Europa, sendo os ricos apenas o outro lado da mesma moeda. Ivã é o eterno estrangeiro, incapaz de adaptar-se a lugar nenhum. Atormentado pelas escolhas que fez e pelas peças que a Fortuna pregou-lhe acaba num final trágico. Em torno de Ivã circulam os diversos elementos que compunham a sociedade paulista de então, cada qual com seus dramas ou felicidades. Temos a aristocracia paulista decadente, os imigrantes modernizantes e enriquecentes, os caboclos fugintes, os políticos politicantes, os operários empobrecentes, todos representados por personagens simbólicos que mostram o destino que cada uma destas categorias tomava nas efervescentes primeiras décadas do século XX.
Trata-se aqui de um romance nacionalista, cristão e com uma vertente místico-folclórica. Alusões a peripécias bíblicas e figuras típicas do folclore brasileiro estão por toda a parte, o nacionalismo ufano, a preocupação com a construção da Nação Integral, o papel do imigrante, por vezes parecendo mesmo a ameaça do imigrante, dão o tom geral do texto.
Do ponto de vista puramente estético ou estilísticos a obra apresenta as características de um modernismo “urbano” à la Oswald. Apesar de passar-se grande parte da narrativa na fazenda, onde o folclore, a paisagem e linguagem do interior predominam, é sempre o estilo veloz, cinematográfico, conciso, enfim, urbano, que se mantém. O texto, contudo, não chega ao nível criativo e estilístico de Oswald, deixa um sabor de obra menor, de segunda-mão. Atribuir-lhe, entretanto, tais títulos seria tremenda injustiça, seria fechar os olhos para vigor original e verdadeiro que lhe está presente.
O Estrangeiro é uma obra que tem todos os méritos de um grande livro modernista, seja pelo estilo, seja pela temática. Revela-nos a São Paulo do início do século e os grandes acontecimentos que foram a imigração e a industrialização. Além disso, dá-nos uma visão diversa da dos maiores e mais conhecidos mestres do modernismo brasileiro, visão essa que hoje é um tanto desconhecida e, portanto, estupidamente rejeitada.
O Estrangeiro, publicado em 1926 é, sem dúvida, uma das nossas grandes obras modernistas. Todas as características do (anti)romance moderno ali estão, formando um todo harmônico e desvelando uma outra face da agitação cultural que chacoalhara o Brasil e o mundo na primeira metade do século XX.
O livro conta a história da industrialização e da imigração paulista, imigrantes que enriquecem e modernizam o Brasil arcaico, acuando os nativos caboclos para os recantos do interior, trazendo, ou renovando e fortalecendo os já existentes vícios estrangeiros. A história gravita em torno de Ivã, um revolucionário russo que migra para São Paulo em busca de um novo mundo, original, bárbaro, livre das restrições da velha Europa. Passa, junto com os italianos, pela lavoura de café e acaba tornando-se um industrial. No entanto descobre que o Novo Mundo não é senão uma extensão, uma cópia do Velho, que ele mesmo reconstruía aqui tudo o que odiara na sua pátria, que a possibilidade de enriquecimento, de “ascensão” aqui, então, existentes fazem parte do mesmo movimento que destruira a Europa, sendo os ricos apenas o outro lado da mesma moeda. Ivã é o eterno estrangeiro, incapaz de adaptar-se a lugar nenhum. Atormentado pelas escolhas que fez e pelas peças que a Fortuna pregou-lhe acaba num final trágico. Em torno de Ivã circulam os diversos elementos que compunham a sociedade paulista de então, cada qual com seus dramas ou felicidades. Temos a aristocracia paulista decadente, os imigrantes modernizantes e enriquecentes, os caboclos fugintes, os políticos politicantes, os operários empobrecentes, todos representados por personagens simbólicos que mostram o destino que cada uma destas categorias tomava nas efervescentes primeiras décadas do século XX.
Trata-se aqui de um romance nacionalista, cristão e com uma vertente místico-folclórica. Alusões a peripécias bíblicas e figuras típicas do folclore brasileiro estão por toda a parte, o nacionalismo ufano, a preocupação com a construção da Nação Integral, o papel do imigrante, por vezes parecendo mesmo a ameaça do imigrante, dão o tom geral do texto.
Do ponto de vista puramente estético ou estilísticos a obra apresenta as características de um modernismo “urbano” à la Oswald. Apesar de passar-se grande parte da narrativa na fazenda, onde o folclore, a paisagem e linguagem do interior predominam, é sempre o estilo veloz, cinematográfico, conciso, enfim, urbano, que se mantém. O texto, contudo, não chega ao nível criativo e estilístico de Oswald, deixa um sabor de obra menor, de segunda-mão. Atribuir-lhe, entretanto, tais títulos seria tremenda injustiça, seria fechar os olhos para vigor original e verdadeiro que lhe está presente.
O Estrangeiro é uma obra que tem todos os méritos de um grande livro modernista, seja pelo estilo, seja pela temática. Revela-nos a São Paulo do início do século e os grandes acontecimentos que foram a imigração e a industrialização. Além disso, dá-nos uma visão diversa da dos maiores e mais conhecidos mestres do modernismo brasileiro, visão essa que hoje é um tanto desconhecida e, portanto, estupidamente rejeitada.
sexta-feira, dezembro 20, 2002
Reencontro de velhos conhecidos, ou, a filosofia no século XXI
-Então, o que andas fazendo?
-Estou matriculado na faculdade de filosofia.
-Ah! Pois estou diante de um respeitável filósofo!
-Filósofo? Não. Médico legista seria o termo mais apropriado. Dado que a filosofia está morta, o que é uma evidência empírica indiscutível, não passo de um legista que analisa a causa mortis deste singular specimen que é, ou melhor, foi o Espírito.
-Quem diria, os autoproclamados filósofos são então médicos?
-Não exatamente. Os professores e estudantes de filosofia hoje se dividem em três categorias: os médicos legistas, como eu, os antiquários e os vermes que tentam sugar os últimos resquícios de nutrientes do cadáver do Espírito, já nos últimos estágios de decomposição. Quando do Espírito só sobrar o pó, restarão apenas os antiquários.
-Então, o que andas fazendo?
-Estou matriculado na faculdade de filosofia.
-Ah! Pois estou diante de um respeitável filósofo!
-Filósofo? Não. Médico legista seria o termo mais apropriado. Dado que a filosofia está morta, o que é uma evidência empírica indiscutível, não passo de um legista que analisa a causa mortis deste singular specimen que é, ou melhor, foi o Espírito.
-Quem diria, os autoproclamados filósofos são então médicos?
-Não exatamente. Os professores e estudantes de filosofia hoje se dividem em três categorias: os médicos legistas, como eu, os antiquários e os vermes que tentam sugar os últimos resquícios de nutrientes do cadáver do Espírito, já nos últimos estágios de decomposição. Quando do Espírito só sobrar o pó, restarão apenas os antiquários.
Ia-me esquecendo das onomatopéias, elas abundam no texto. Tornam a linguagem mais popular, no bom sentido, se é que ele existe, concisa, ágil, rápida. "Os sapos fizeram: -Tan-tan" é muito mais veloz do que gastar linhas cheias de adjetivos descrevendo o estrepitoso coaxar dos noturnos sapos gozantes da sua indolência veranil.
As prosopopéias estão também em toda a parte.
As prosopopéias estão também em toda a parte.
O ritmo tornou-se mais lento, as conjunções, envergonhadas, começam a aparecer aqui e lá, já não mais só as ríspidas aditivas “e” e adversativas “mas”, uns “como” e uns relativos “que” também se mostram de vez em quando. Mas nada que altere drasticamente a agilidade do texto, que continua veloz e conciso. Telegráfico, portanto.
Contudo, esta agilidade do Plínio Salgado assemelha-se à rapidez mecânica de um motor a explosão: quadrada, não cubista, simplesmente quadrada. É de um gênero completamente diferente ao vagar do Garrett, um representa o compasso discreto da industrialização, o outro o movimento contínuo da natureza.
Lendo agora os modernistas não é difícil intuir por que a literatura morreu. Realmente, ir além do telegrafismo modernista, só com a desconstrução completa da linguagem.
O Estrangeiro é de 26, o João Miramar é de 23, aquele é um desdobramento desse. O misticismo, o cristianismo, o nacionalismo daquele ajudam a colocá-lo num patamar inferior. Sem dúvida é um grande romance modernista, mas cheira a uma cópia deturpada do grande Oswald.
Contudo, esta agilidade do Plínio Salgado assemelha-se à rapidez mecânica de um motor a explosão: quadrada, não cubista, simplesmente quadrada. É de um gênero completamente diferente ao vagar do Garrett, um representa o compasso discreto da industrialização, o outro o movimento contínuo da natureza.
Lendo agora os modernistas não é difícil intuir por que a literatura morreu. Realmente, ir além do telegrafismo modernista, só com a desconstrução completa da linguagem.
O Estrangeiro é de 26, o João Miramar é de 23, aquele é um desdobramento desse. O misticismo, o cristianismo, o nacionalismo daquele ajudam a colocá-lo num patamar inferior. Sem dúvida é um grande romance modernista, mas cheira a uma cópia deturpada do grande Oswald.
quinta-feira, dezembro 19, 2002
Acabadas as Viagens parto para O Estrangeiro, estranha coincidência de nomes. Bukharin, eis o acaso!
Ainda estou nas primeiras páginas, mas que diferença! Brutal, para dizer o mínimo. Períodos breves, parágrafos curtíssimos, linguagem rápida, ríspida e agitada, paisagem eminentemente urbana, verdadeira obra da São Paulo industrializante. A linguagem é cinematográfica:
“As lanternas piscavam na escuridão.
Achara-se em Gênova, para escapar ao fuzil em Moscou.
O céu baixo abafava a planície da Mooca e do Brás, esmagada pelo casario em atropêlo.
Como conseguira, ante as maiores dificuldades, encaixar-se entre os imigrantes italianos?“
A brevidade dos períodos e dos parágrafos, as elipses freqüentes e rasteiras, a linguagem, não contida, mas sintética, as metáforas urbanas e velozes, tudo soma para a criação de um ritmo frenético.
Depois do tom lento, pensativo, meio bucólico das Viagens, com sua crítica à modernização de Portugal, este elogio da modernização paulista torna-se chocante.
Ainda estou nas primeiras páginas, mas que diferença! Brutal, para dizer o mínimo. Períodos breves, parágrafos curtíssimos, linguagem rápida, ríspida e agitada, paisagem eminentemente urbana, verdadeira obra da São Paulo industrializante. A linguagem é cinematográfica:
“As lanternas piscavam na escuridão.
Achara-se em Gênova, para escapar ao fuzil em Moscou.
O céu baixo abafava a planície da Mooca e do Brás, esmagada pelo casario em atropêlo.
Como conseguira, ante as maiores dificuldades, encaixar-se entre os imigrantes italianos?“
A brevidade dos períodos e dos parágrafos, as elipses freqüentes e rasteiras, a linguagem, não contida, mas sintética, as metáforas urbanas e velozes, tudo soma para a criação de um ritmo frenético.
Depois do tom lento, pensativo, meio bucólico das Viagens, com sua crítica à modernização de Portugal, este elogio da modernização paulista torna-se chocante.
A Alucinação da Lógica
"É uma descoberta minha de que estou vaidoso e presumido, esta de ser a lógica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais ideal do que o mais fantástico sonho e o mais requintado ideal de poesia
É que os filósofos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o que estoutros não são" (GARRETT, Almeida. Viagens na Minha Terra, cap. XXXIX)
A filosofia, como a história, mostram-se cada vez mais, ainda que a contragosto, meros ramos da literatura. O filósofo então não passará de um poeta ensandecido? As fantasias que os poetas criam pelo menos são belas, inteligentes e agradáveis, já as dos lógicos...
"É uma descoberta minha de que estou vaidoso e presumido, esta de ser a lógica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais ideal do que o mais fantástico sonho e o mais requintado ideal de poesia
É que os filósofos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o que estoutros não são" (GARRETT, Almeida. Viagens na Minha Terra, cap. XXXIX)
A filosofia, como a história, mostram-se cada vez mais, ainda que a contragosto, meros ramos da literatura. O filósofo então não passará de um poeta ensandecido? As fantasias que os poetas criam pelo menos são belas, inteligentes e agradáveis, já as dos lógicos...
"De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra"
Viagens na Minha Terra é um brilhante e precursor livro, escrito em 1849 por Almeida Garrett, é obra que não se restringe a nenhuma classificação, não cabe em nenhuma dos bem organizados fichários dos arquivistas. Filosofia, história, política, religião, crítica social, literatura, todos as áreas das chamadas humanidades misturam-se numa explosão efervescente de idéias inapreensível à estreita mente dos especialistas.
No livro o autor narra a sua viagem de Lisboa a Santarém, mas não do tradicional modo, como se espera que seja um livro de viagens, mas em uma séria de digressões entremeadas, que, em um tom aberto, jocoso, livre, despreocupado, nos levam à Santarém em meio a uma verdadeira inundação de pensamentos intuitivos e que andam aos saltos. Garrett vai da crítica da literatura, sim critica da literatura e não crítica literária, às relações entre vinho português e o sucesso da Inglaterra, da filosofia à destruição do patrimônio histórico de Portugal.
Como não poderia deixar de ser, há também diluída no texto uma história romântica, que se a princípio parece estranha e inimiga do restante da narrativa, como se fossem apenas feios e tediosos intermezzos que o autor inserira artificialmente no livro, seja para torná-lo mais vendável, seja por falta de coragem, ou mesmo por falta de inspiração, aos poucos nos envolve e mostra sua ligação íntima com as outras partes da obra.
Nesta obra prima da literatura lusófona, Garrett usa um linguajar solto, até então inédito, e que, além de todas as divagações, mostra-nos um Portugal consciente de que se havia perdido na História, que nos faz lembrar que apesar de todas as nossas especificidades, somos autênticos descendentes de portugueses, no que nisto há de ruim, mas também no que há de bom.
Viagens na Minha Terra é um brilhante e precursor livro, escrito em 1849 por Almeida Garrett, é obra que não se restringe a nenhuma classificação, não cabe em nenhuma dos bem organizados fichários dos arquivistas. Filosofia, história, política, religião, crítica social, literatura, todos as áreas das chamadas humanidades misturam-se numa explosão efervescente de idéias inapreensível à estreita mente dos especialistas.
No livro o autor narra a sua viagem de Lisboa a Santarém, mas não do tradicional modo, como se espera que seja um livro de viagens, mas em uma séria de digressões entremeadas, que, em um tom aberto, jocoso, livre, despreocupado, nos levam à Santarém em meio a uma verdadeira inundação de pensamentos intuitivos e que andam aos saltos. Garrett vai da crítica da literatura, sim critica da literatura e não crítica literária, às relações entre vinho português e o sucesso da Inglaterra, da filosofia à destruição do patrimônio histórico de Portugal.
Como não poderia deixar de ser, há também diluída no texto uma história romântica, que se a princípio parece estranha e inimiga do restante da narrativa, como se fossem apenas feios e tediosos intermezzos que o autor inserira artificialmente no livro, seja para torná-lo mais vendável, seja por falta de coragem, ou mesmo por falta de inspiração, aos poucos nos envolve e mostra sua ligação íntima com as outras partes da obra.
Nesta obra prima da literatura lusófona, Garrett usa um linguajar solto, até então inédito, e que, além de todas as divagações, mostra-nos um Portugal consciente de que se havia perdido na História, que nos faz lembrar que apesar de todas as nossas especificidades, somos autênticos descendentes de portugueses, no que nisto há de ruim, mas também no que há de bom.
quarta-feira, dezembro 18, 2002
E viva os especialistas
Este é bom anotar, pode servir de idéia para um filme. Uma mulher sofre uma operação cirúrgica, após a operação que deveria curá-la passa a ter estranhas dores na barriga, mas os médicos não acham nada de anormal. Quatro meses após a operação, o detector de metal impede-a de embarcar num vôo, alguns dias depois descobre a causa, das dores e da aparente loucura do detector: o médico que realizara a cirurgia quatro meses atrás esquecera dentro da sua barriga um dos instrumentos operatórios. Os efeitos cômicos ou dramáticos poderiam ser aumentados se fosse um pacato homem árabe tentando embarcar em um vôo nos Estados Unidos...
***
Será este um resultado da simples imperícia, ou mais um dos recorrentes exemplos do mal-estar da decadente sociedade espetacular-mercantil? O domínio do especialista, a falta de comunicação, a passividade, a homogeinização, enfim, não estão aí todos os elementos característicos? Tal acontecimento seria possível quando os antigos médicos relacionavam-se com os antigos pacientes?
KANADA
Arzt vergaß OP-Werkzeug in Patientenbauch
Vier Monate lang lebte eine Kanadierin mit einem 30 Zentimeter langen Operationsinstrument in ihrem Bauch. Erst bei einer Sicherheitskontrolle am Flughafen machte sich der metallene Fremdkörper bemerkbar.
Hier klicken!
Hamburg - Wie der kanadische Fernsehsender CBC berichtet, klagt die Frau jetzt gegen den Arzt, der die Operation vor einem halben Jahr vorgenommen hatte. Bemerkt wurde der ungewöhnliche Bauchinhalt, als die Frau im Oktober am Flughafen von Regina in der Provinz Saskatchewan die Sicherheitskontrolle passieren wollte, um ein Flugzeug nach Calgary zu besteigen. Der Metalldetektor schlug an, die Sicherheitskräfte konnten jedoch keine Metallgegenstände bei der Frau finden.
Ein paar Tage später unterzog sie sich einer Röntgenuntersuchung. Ergebnis: Im Bauch der Frau befand sich eine 30 Zentimeter lange und fünf Zentimeter breite Vorrichtung, die dazu dient, Schnitte während einer Operation offen zu halten. In einer zweiten Operation ließ sie sich das Werkzeug jetzt entfernen.
Vier Monate lang hatte die Patientin davor über Schmerzen geklagt, die Ärzte konnten jedoch nichts finden. Jetzt will sie vom operierenden Arzt und dem Krankenhaus Schadenersatz. "Es wäre untertrieben zu sagen, es sei eine Überraschung für meine Mandantin gewesen", zitiert CBC den Anwalt der Frau. "Es war Horror."
Este é bom anotar, pode servir de idéia para um filme. Uma mulher sofre uma operação cirúrgica, após a operação que deveria curá-la passa a ter estranhas dores na barriga, mas os médicos não acham nada de anormal. Quatro meses após a operação, o detector de metal impede-a de embarcar num vôo, alguns dias depois descobre a causa, das dores e da aparente loucura do detector: o médico que realizara a cirurgia quatro meses atrás esquecera dentro da sua barriga um dos instrumentos operatórios. Os efeitos cômicos ou dramáticos poderiam ser aumentados se fosse um pacato homem árabe tentando embarcar em um vôo nos Estados Unidos...
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Será este um resultado da simples imperícia, ou mais um dos recorrentes exemplos do mal-estar da decadente sociedade espetacular-mercantil? O domínio do especialista, a falta de comunicação, a passividade, a homogeinização, enfim, não estão aí todos os elementos característicos? Tal acontecimento seria possível quando os antigos médicos relacionavam-se com os antigos pacientes?
KANADA
Arzt vergaß OP-Werkzeug in Patientenbauch
Vier Monate lang lebte eine Kanadierin mit einem 30 Zentimeter langen Operationsinstrument in ihrem Bauch. Erst bei einer Sicherheitskontrolle am Flughafen machte sich der metallene Fremdkörper bemerkbar.
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Hamburg - Wie der kanadische Fernsehsender CBC berichtet, klagt die Frau jetzt gegen den Arzt, der die Operation vor einem halben Jahr vorgenommen hatte. Bemerkt wurde der ungewöhnliche Bauchinhalt, als die Frau im Oktober am Flughafen von Regina in der Provinz Saskatchewan die Sicherheitskontrolle passieren wollte, um ein Flugzeug nach Calgary zu besteigen. Der Metalldetektor schlug an, die Sicherheitskräfte konnten jedoch keine Metallgegenstände bei der Frau finden.
Ein paar Tage später unterzog sie sich einer Röntgenuntersuchung. Ergebnis: Im Bauch der Frau befand sich eine 30 Zentimeter lange und fünf Zentimeter breite Vorrichtung, die dazu dient, Schnitte während einer Operation offen zu halten. In einer zweiten Operation ließ sie sich das Werkzeug jetzt entfernen.
Vier Monate lang hatte die Patientin davor über Schmerzen geklagt, die Ärzte konnten jedoch nichts finden. Jetzt will sie vom operierenden Arzt und dem Krankenhaus Schadenersatz. "Es wäre untertrieben zu sagen, es sei eine Überraschung für meine Mandantin gewesen", zitiert CBC den Anwalt der Frau. "Es war Horror."
“Nunca tinha entendido Shakspeare enquanto o não li em Warwick” (GARRETT, Almeida. Viagens na minha terra, cap. XXVI)
No início deste capítulo o grandíssimo Garrett lança uma idéia que deveria receber um sério tratamento: a influência do meio geográfico na interpretação de um texto. Está na hora de criarmos um novo campo de pesquisa, se é que ele já não existe: a Psicogeografia Literária.
No início deste capítulo o grandíssimo Garrett lança uma idéia que deveria receber um sério tratamento: a influência do meio geográfico na interpretação de um texto. Está na hora de criarmos um novo campo de pesquisa, se é que ele já não existe: a Psicogeografia Literária.
“Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices” (GARRETT, Almeida. Viagens na minha terra, cap. XXIV)
Sim vivemos num inferno de tolices, quem nunca reparou nisso? A artificialidade tola da vida social apequena o indivíduo, quando deveria ser o solo que o faz crescer.
Pois então vivemos num inferno de tolices, resta agora saber como o encarar. Como Demócrito, que ria das tolices dos homens, ou como Heráclito, que, ao contrário, chorava-as. A senda democritiana parece a mais altiva e eficaz, mas talvez a contraparte heraclitiana seja a mais sincera.
Contudo, a mais cômoda é, sem dúvida, a apatia cética.
Sim vivemos num inferno de tolices, quem nunca reparou nisso? A artificialidade tola da vida social apequena o indivíduo, quando deveria ser o solo que o faz crescer.
Pois então vivemos num inferno de tolices, resta agora saber como o encarar. Como Demócrito, que ria das tolices dos homens, ou como Heráclito, que, ao contrário, chorava-as. A senda democritiana parece a mais altiva e eficaz, mas talvez a contraparte heraclitiana seja a mais sincera.
Contudo, a mais cômoda é, sem dúvida, a apatia cética.
Notícias da democracia
Mais um exemplo democrático: os senadores do PT "esquecem" tudo o que afirmavam até quatro meses atrás e passam a agir exatamente como seus supostos adversários agiam.
Criticavam o Fraga, abraçam um seu clone, criticavam a servilitude dos parlamentares do governo, servem sem questionar as ordens de Lula, e assim poderíamos ir ad infinitum, visto que é infinita a desfaçatez da nossa iluminada vanguarda.
Senadores do PT são questionados na sabatina de Meirelles
Brasília - Os senadores petistas ouviram calados, durante a sabatina de Henrique Meirelles na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), nesta terça-feira, críticas de colegas sobre a forma como eles condenaram a escolha do atual presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e por não terem feito o mesmo agora, embora ambos tenham atuado no mercado financeiro internacional.
O senador Geraldo Althoff (PFL-SC) afirmou que, desde então, passaram-se 1.390 dias. “E, tanto antes como hoje, se buscou satisfazer a expectativa do mercado”, disse. “Mas não trataremos nenhuma pessoa que aqui vier como sendo uma raposa cuidando do galinheiro”, ironizou, referindo-se à forma como os parlamentares do PT reagiram à indicação de Fraga.
O senador Fernando Bezerra (PTB-RN), que presidia a comissão na ocasião, disse que a oposição ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso afirmava que Armínio iria operar no Banco Central os interesses financeiros internacionais. “E o que ele fez foi uma gestão honrada, competente e ética”, disse.
No mesmo tom provocativo, o senador Eduardo Siqueira Campos (PSDB-TO) relacionou as “agressões verbais” da oposição contra Armínio: “Diziam que estavam amarrando cachorro com linguiça, que seria uma vampiro tomando conta do banco de sangue ou uma raposa tomando conta do galinheiro”.
Outra ironia da sabatina foi que, pela primeira vez, senadores tidos como os mais empenhados na defesa da moralidade, como o líder Eduardo Suplicy (PT-SP) e José Eduardo Dutra (PT-SE), mostraram-se indiferentes às denúncias feitas pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), contra Henrique Meirelles.
Segundo o senador tucano, o ex-presidente do BankBoston comandava o esquema de sonegação existente naquele banco, como constaria do relatório final da CPI dos Bancos, realizada no Senado entre janeiro e fevereiro de 1999. Antero leu trechos do relatório da comissão.
O documento afirma que o BankBoston teria cometido uma série de irregularidades para mascarar a remessa de lucros ao exterior, sonegar impostos e obter ganhos nas operações realizadas em função da mudança do regime cambial.
O senador acusou Meirelles de “dificultar a fiscalização do Banco Central”: “Como é que a fiscalização do BC vai sentir-se quando for comandada pelo outro lado que dificultava sua ação?”, questionou.
Ele pediu ao presidente em exercício da CAE, Waldeck Ornelas (PFL-BA), que suspendesse a sabatina para que os senadores tomassem conhecimento da denúncia. Ornelas mandou distribuir cópia de trechos do relatório da CPI, mas deu prosseguimento à sessão, ignorando o pedido do colega.
Henrique Meirelles se defendeu alegando que se tratava de um relatório preliminar da CPI, que não chegou a ser confirmado. Os senadores petistas mantiveram-se impassíveis, como se não tivessem ouvido a denúncia. Eles não atacaram nem defenderam o escolhido do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, para o comando do Banco Central.
Apoio, mesmo, Henrique Meirelles só recebeu do governador de Goiás, Marconi Perillo, que se sentou a seu lado, na mesa diretora da CAE, e de parlamentares goianos de todos os partidos, presentes à sabatina.
Mais um exemplo democrático: os senadores do PT "esquecem" tudo o que afirmavam até quatro meses atrás e passam a agir exatamente como seus supostos adversários agiam.
Criticavam o Fraga, abraçam um seu clone, criticavam a servilitude dos parlamentares do governo, servem sem questionar as ordens de Lula, e assim poderíamos ir ad infinitum, visto que é infinita a desfaçatez da nossa iluminada vanguarda.
Senadores do PT são questionados na sabatina de Meirelles
Brasília - Os senadores petistas ouviram calados, durante a sabatina de Henrique Meirelles na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), nesta terça-feira, críticas de colegas sobre a forma como eles condenaram a escolha do atual presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e por não terem feito o mesmo agora, embora ambos tenham atuado no mercado financeiro internacional.
O senador Geraldo Althoff (PFL-SC) afirmou que, desde então, passaram-se 1.390 dias. “E, tanto antes como hoje, se buscou satisfazer a expectativa do mercado”, disse. “Mas não trataremos nenhuma pessoa que aqui vier como sendo uma raposa cuidando do galinheiro”, ironizou, referindo-se à forma como os parlamentares do PT reagiram à indicação de Fraga.
O senador Fernando Bezerra (PTB-RN), que presidia a comissão na ocasião, disse que a oposição ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso afirmava que Armínio iria operar no Banco Central os interesses financeiros internacionais. “E o que ele fez foi uma gestão honrada, competente e ética”, disse.
No mesmo tom provocativo, o senador Eduardo Siqueira Campos (PSDB-TO) relacionou as “agressões verbais” da oposição contra Armínio: “Diziam que estavam amarrando cachorro com linguiça, que seria uma vampiro tomando conta do banco de sangue ou uma raposa tomando conta do galinheiro”.
Outra ironia da sabatina foi que, pela primeira vez, senadores tidos como os mais empenhados na defesa da moralidade, como o líder Eduardo Suplicy (PT-SP) e José Eduardo Dutra (PT-SE), mostraram-se indiferentes às denúncias feitas pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), contra Henrique Meirelles.
Segundo o senador tucano, o ex-presidente do BankBoston comandava o esquema de sonegação existente naquele banco, como constaria do relatório final da CPI dos Bancos, realizada no Senado entre janeiro e fevereiro de 1999. Antero leu trechos do relatório da comissão.
O documento afirma que o BankBoston teria cometido uma série de irregularidades para mascarar a remessa de lucros ao exterior, sonegar impostos e obter ganhos nas operações realizadas em função da mudança do regime cambial.
O senador acusou Meirelles de “dificultar a fiscalização do Banco Central”: “Como é que a fiscalização do BC vai sentir-se quando for comandada pelo outro lado que dificultava sua ação?”, questionou.
Ele pediu ao presidente em exercício da CAE, Waldeck Ornelas (PFL-BA), que suspendesse a sabatina para que os senadores tomassem conhecimento da denúncia. Ornelas mandou distribuir cópia de trechos do relatório da CPI, mas deu prosseguimento à sessão, ignorando o pedido do colega.
Henrique Meirelles se defendeu alegando que se tratava de um relatório preliminar da CPI, que não chegou a ser confirmado. Os senadores petistas mantiveram-se impassíveis, como se não tivessem ouvido a denúncia. Eles não atacaram nem defenderam o escolhido do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, para o comando do Banco Central.
Apoio, mesmo, Henrique Meirelles só recebeu do governador de Goiás, Marconi Perillo, que se sentou a seu lado, na mesa diretora da CAE, e de parlamentares goianos de todos os partidos, presentes à sabatina.
terça-feira, dezembro 17, 2002
Depois de um genial começo, que poderia muito bem passar por modernista, depois de criticar o romantismo e declarar-se abertamente não-romântico, depois de desmistificar a literatura e os literatos, depois de esboçar em grandes traços o programa realista, o grande Garrett cai no mais puro romantismo! Com mulheres singelas, gentis, vaporosas, com os empecilhos que impedem a consumação do grande amor, com o segredo fatal, com a avó que fica cega de tanto chorar, com o filho que luta no exército oposto ao da família, e tudo o mais a que um romance romântico tem direito. Vá lá, ainda estou na metade, esperemos o final.
segunda-feira, dezembro 16, 2002
"Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar, a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida total material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. - No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana?" (GARRET, Almeita. Viagens na Minha Terra, cap. III)
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