sábado, dezembro 21, 2002

O Estrangeiro, de Plínio Salgado

O Estrangeiro, publicado em 1926 é, sem dúvida, uma das nossas grandes obras modernistas. Todas as características do (anti)romance moderno ali estão, formando um todo harmônico e desvelando uma outra face da agitação cultural que chacoalhara o Brasil e o mundo na primeira metade do século XX.

O livro conta a história da industrialização e da imigração paulista, imigrantes que enriquecem e modernizam o Brasil arcaico, acuando os nativos caboclos para os recantos do interior, trazendo, ou renovando e fortalecendo os já existentes vícios estrangeiros. A história gravita em torno de Ivã, um revolucionário russo que migra para São Paulo em busca de um novo mundo, original, bárbaro, livre das restrições da velha Europa. Passa, junto com os italianos, pela lavoura de café e acaba tornando-se um industrial. No entanto descobre que o Novo Mundo não é senão uma extensão, uma cópia do Velho, que ele mesmo reconstruía aqui tudo o que odiara na sua pátria, que a possibilidade de enriquecimento, de “ascensão” aqui, então, existentes fazem parte do mesmo movimento que destruira a Europa, sendo os ricos apenas o outro lado da mesma moeda. Ivã é o eterno estrangeiro, incapaz de adaptar-se a lugar nenhum. Atormentado pelas escolhas que fez e pelas peças que a Fortuna pregou-lhe acaba num final trágico. Em torno de Ivã circulam os diversos elementos que compunham a sociedade paulista de então, cada qual com seus dramas ou felicidades. Temos a aristocracia paulista decadente, os imigrantes modernizantes e enriquecentes, os caboclos fugintes, os políticos politicantes, os operários empobrecentes, todos representados por personagens simbólicos que mostram o destino que cada uma destas categorias tomava nas efervescentes primeiras décadas do século XX.

Trata-se aqui de um romance nacionalista, cristão e com uma vertente místico-folclórica. Alusões a peripécias bíblicas e figuras típicas do folclore brasileiro estão por toda a parte, o nacionalismo ufano, a preocupação com a construção da Nação Integral, o papel do imigrante, por vezes parecendo mesmo a ameaça do imigrante, dão o tom geral do texto.

Do ponto de vista puramente estético ou estilísticos a obra apresenta as características de um modernismo “urbano” à la Oswald. Apesar de passar-se grande parte da narrativa na fazenda, onde o folclore, a paisagem e linguagem do interior predominam, é sempre o estilo veloz, cinematográfico, conciso, enfim, urbano, que se mantém. O texto, contudo, não chega ao nível criativo e estilístico de Oswald, deixa um sabor de obra menor, de segunda-mão. Atribuir-lhe, entretanto, tais títulos seria tremenda injustiça, seria fechar os olhos para vigor original e verdadeiro que lhe está presente.

O Estrangeiro é uma obra que tem todos os méritos de um grande livro modernista, seja pelo estilo, seja pela temática. Revela-nos a São Paulo do início do século e os grandes acontecimentos que foram a imigração e a industrialização. Além disso, dá-nos uma visão diversa da dos maiores e mais conhecidos mestres do modernismo brasileiro, visão essa que hoje é um tanto desconhecida e, portanto, estupidamente rejeitada.

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