sexta-feira, dezembro 27, 2002

Envergonhadas linhas verspertinas

Abate-se-me a força irresistível da Preguiça. Acabo de ler duas obras geniais, basilares, uma do pensamento ocidental moderno, outra da brasilidade enfim encontrada consigo mesma, e que faço com a multitude de idéias, intuições, inspirações, que graciosamente me deram tais marcos sobrenadantes em genialidade? Nada. Ou quase nada, desconsiderando-se algumas anotações sem graça perdidas em algum canto.

Poderia, com o dedo em riste, acusar a nefanda época do ano em que estamos, a mediocridade deprimente do simulacro da festa do sol invictus, pela qual acabamos de passar, e a lascinante estupidez absolutamente insípida do fim do ano cristão, que caminha até nós a passos largos. Seriam bons culpados, qualquer miserável júri popular absolver-me-ia. Contudo, dirá um valoroso aristocrata, só os fracos choramingam. Aceito o desafio e culpo-me a mim mesmo, nada de jogar a culpa do tédio que nos domina em quem quer que seja. Não passamos de poeira, é verdade, somos produtos históricos, é verdade, somos escravos do subconsciente, é verdade, não temos como escapar da cultura que nos cerca, também é verdade. Porém é uma verdade muito mais fundamental que do restinho de livre-arbítrio que sobra após descontadas todas essas restrições, é possível subvertê-las todas. O ínfimo grãozinho de independência que possuímos é mais pujante do que a montanha de determinantes que nos oprime.

Sendo assim, com a devida humildade assinalo este período de mais vil mediocridade e caminho adiante. Como cantava o cancioneira da revolução chilena: Caminando, caminando/ voy buscando libertad/ ojalá encuentre camino/ para seguir caminando.

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