sábado, maio 31, 2008
Da adivinhação e da indeterminação das teorias pelos fatos
No capítulo LXXIII do segundo livro do Don Quixote, o bom Cervantes nos dá um ótimo exemplo de como a adivinhação é tola, e de como os fatos por si mesmos nada dizem: uma lebre foge espantada por caçadores, para don Quixote esse é um sinal de que jamais verá Dulcinéia desencantada, para Sancho é um sinal de que Dulcinéia lhe vai ao encontro.
sexta-feira, maio 30, 2008
Suspensão parcial
Acabei de realizar um teste de suspensão parcial. Ainda não encontrei o lugar correto nem a pressão correta , mas o processo parece bem mais simples e tranqüilo do que as suas representações cinematográficas indicam. O mais estranho de tudo foi descobrir que a asfixia possui um caráter erógeno. A asfixia erótica era-me uma completa desconhecida, e se alguém me houvesse falado de tal coisa eu teria dificuldade em acreditar, certamente acabaria adicionando-a ao rol de maluquices que pessoas de sanidade mental duvidável consideram erógenas. A experiência inusitada me levou a uma busca na internete, e ao que parece o efeito erógeno da asfixia realmente é comum. Extremamente curiosos os efeitos da falta e do excesso de oxigênio no cérebro!
[tagebuch] Da decisão derradeira ou why don't I just kill myself?
Durante a insônia que se me acometeu ontem, resolvi finalmente tomar a decisão derradeira. É hora de abandonar a nau dos vivos. Sendo o fracasso meu único sucesso, sendo a estupidez o destino para onde me leva a inteligência, sendo a mesquinharia o resultado da tentativa de nobreza, nada resta que me prenda ao mundo dos vivos. Arte, ciência, religião, amizade, tudo aquilo que justificaria a permanência em vida já foi por mim tentado, tudo foi em vão.
Muitos flutuam miseráveis entre o medo da morte e as tormentas da vida, não querendo viver e não sabendo morrer. Esta sentença maior do velho Sêneca, dentre as tantas que ele proferiu, é o frontispício deste diário. Nunca pensei ser um destes seres perdidos entre o temor da vida e o temor da morte, contudo receio tornar-me um deles se continuar perambulando por entre os vivos. Abraçar a vida ou abraçar a morte, aborreço qualquer opção intermediária! Frustrada a experiência de viver, cabe saber morrer.
A escolha pela morte voluntária está feita, é, porém, de difícil execução. A tola e irracional aversão da nossa sociedade ao suicídio torna complexa aquela que deveria escolha das mais simples e naturais. Não escolhemos nascer, mas sempre podemos escolher morrer. A questão portanto é como abandonar a vida de maneira digna e razoável, dadas as restrições impostas pelo meio social?
Não há, é claro, resposta geral, cada situação específica terá uma resposta que lhe é peculiar. Eu sempre considerei a morte por inanição voluntária a mais nobre das mortes, pois mostra que se tratou de uma decisão razoável e pensada, que poderia ser a todo instante revertida caso houvesse dúvida ou arrependimento. Mais ainda, é morte realizada sem auxílio algum de coisas externas. Enquanto um enforcado usou da forca, o baleado da arma de fogo, o envenenado do veneno, o morto por inanição morreu única e exclusivamente pela sua vontade, sem precisar recorrer a instrumento nenhum.
A inanição é, no entanto, impraticável. Seria preciso semanas de isolamento, que estão fora do meu alcance. Ficara eu duas semanas sem comer, logo alguém percebia e mandava-me para o hospício.
Quais opções me restam? Não muitas. Depois de observar o movimento no alt.suicide.methods e no alt.suicide.holiday decidi-me pelo enforcamento. É muito menos angustiante do que parece, basta saber fazê-lo propriamente.
Tempo de parar, pois, dentre outras coisas, devo praticar com o laço e a maneira de suspender-me corretamente. Ainda é cedo para dizer adeus aos que ficam, mas já passou o tempo de saudar os que já foram.
Muitos flutuam miseráveis entre o medo da morte e as tormentas da vida, não querendo viver e não sabendo morrer. Esta sentença maior do velho Sêneca, dentre as tantas que ele proferiu, é o frontispício deste diário. Nunca pensei ser um destes seres perdidos entre o temor da vida e o temor da morte, contudo receio tornar-me um deles se continuar perambulando por entre os vivos. Abraçar a vida ou abraçar a morte, aborreço qualquer opção intermediária! Frustrada a experiência de viver, cabe saber morrer.
A escolha pela morte voluntária está feita, é, porém, de difícil execução. A tola e irracional aversão da nossa sociedade ao suicídio torna complexa aquela que deveria escolha das mais simples e naturais. Não escolhemos nascer, mas sempre podemos escolher morrer. A questão portanto é como abandonar a vida de maneira digna e razoável, dadas as restrições impostas pelo meio social?
Não há, é claro, resposta geral, cada situação específica terá uma resposta que lhe é peculiar. Eu sempre considerei a morte por inanição voluntária a mais nobre das mortes, pois mostra que se tratou de uma decisão razoável e pensada, que poderia ser a todo instante revertida caso houvesse dúvida ou arrependimento. Mais ainda, é morte realizada sem auxílio algum de coisas externas. Enquanto um enforcado usou da forca, o baleado da arma de fogo, o envenenado do veneno, o morto por inanição morreu única e exclusivamente pela sua vontade, sem precisar recorrer a instrumento nenhum.
A inanição é, no entanto, impraticável. Seria preciso semanas de isolamento, que estão fora do meu alcance. Ficara eu duas semanas sem comer, logo alguém percebia e mandava-me para o hospício.
Quais opções me restam? Não muitas. Depois de observar o movimento no alt.suicide.methods e no alt.suicide.holiday decidi-me pelo enforcamento. É muito menos angustiante do que parece, basta saber fazê-lo propriamente.
Tempo de parar, pois, dentre outras coisas, devo praticar com o laço e a maneira de suspender-me corretamente. Ainda é cedo para dizer adeus aos que ficam, mas já passou o tempo de saudar os que já foram.
quinta-feira, maio 29, 2008
[tagebuch] Dos costumes amorosos dos dias que vão
Ontem uma que amei chamou-me lento. Não a traí por ser demasiado lento, eis o que disse ao lastimar-se dos amores passados e de todo o restante do gênero masculino. É curioso que logo eu, o defensor do amor livre, seja um dos poucos que ela afirma não a ter traído. Justo aquele para quem 'traição' é palavra que apresenta pouco sentido e longo desentendimento.
Que dizer? A minha quixotesca constituição da alma não é feita para os dias que vão, talvez seja por isso que tanto me atrai a idéia de seguir o exemplo estóico e ir-me destes dias.
Que dizer? A minha quixotesca constituição da alma não é feita para os dias que vão, talvez seja por isso que tanto me atrai a idéia de seguir o exemplo estóico e ir-me destes dias.
[metatagebuch] Do desfecho do caso girassol
Cometi o erro de reler uma entrada antiga, em que eu, além de perpetrar um vicioso ataque à boa gramática, me desfazia em ilusões acerca da Dama dos Girassóis. Baldado é dizer que as coisas saíram todas erradas. Ela chegou mesmo a mandar-me um email, o qual, conquanto longe daquilo que eu esperava, possibilitava uma resposta galante. A grande falha veio, e de onde mais poderia vir!, da minha inabilidade: só vi a mensagem quando já era passado o tempo oportuno de enviar-lhe uma resposta, portanto fechando-me a oportunidade de iniciar uma troca de correspondências.
Serei justo comigo mesmo, a culpa não foi exclusivamente minha. A Dama dos Girassóis fazia profissão de ser-me mofina, e a mim já não me dava mais gosto algum a sua companhia. Culpa alguma tive eu nisso, considerava-me ela uma espécie de aristocrata de boteco, e um fingidor, e um agressivo. E tudo isso por motivos que jamais fui capaz de alcançar.
Findo o caso girassol com mais um triunfo do fracasso, e não há mais o que ser dito.
Serei justo comigo mesmo, a culpa não foi exclusivamente minha. A Dama dos Girassóis fazia profissão de ser-me mofina, e a mim já não me dava mais gosto algum a sua companhia. Culpa alguma tive eu nisso, considerava-me ela uma espécie de aristocrata de boteco, e um fingidor, e um agressivo. E tudo isso por motivos que jamais fui capaz de alcançar.
Findo o caso girassol com mais um triunfo do fracasso, e não há mais o que ser dito.
Apontamentos casuais sobre uma arqueologia da Procrastinação.
Qual será o nome dado pelos gregos à Procrastinação? Muita graça teria se os antigos também a houvessem personificado, como costumavam fazer com os sentimentos. Não me ocorre, entretanto, ter jamais visto a sua participação na literatura clássica. A Preguiça estava lá, é certo, mas não a Procrastinação. Claro, minha semi-ignorância não me permite tirar a conclusão apressada de que a Procrastinação nunca figurou no panteão greco-latino, mas eu apostaria que não. E acaso não seria para todos os que lhe sofrem os desmandos do mais alto interesse conhecer-lhe as origens míticas e o modo como aqueles sábios sem par que eram os antigos com ela lidavam?
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