domingo, julho 27, 2003

Notas acerca da Santa Igreja Bolchevique

Um partido não pode ser outra coisa senão uma organização que via dirigir e dominar.

Enquanto uma classe é um agrupamento de pessoas que ocupam determinada posição no processo produtivo, tendo por conseqüência certos interesses definidos, um partido é um agrupamento de pessoas que têm pontos de vista idênticos no que se trata de grandes questões sociais. A teoria dizia que num partido de classe, a diferença entre partido e classe desapareceria.

O desenvolvimento da social-democracia mostrou que nada disso ocorreu.

O objetivo dos partidos operários atuais é tomar o poder e exercitá-lo em seu proveito. questi ultimi devono essere delle formazioni politiche caratterizzate da strutture rigide, da una coesione che viene assicurata mediante statuti, misure disciplinari, procedure di ammissione e espulsione.
Nella loro qualità di apparati di potere, essi lottano per il potere, e per mantenere i militanti sulla rette via, servono di quei punti di forza di cui essi dispongono in modo sovrano, pur sforzandosi di accrescere costantemente la propria espansione, la propria influenza. Non si danno certo il compito di educare i lavoratori a pensare con la propria testa, ma al contrario, si ritengono investiti del dovere di ammaestrarli, di trasformarli in fedeli e devoti seguaci delle loro dottrine.
All?interno dei partiti "democratici" questo risultato viene ottenuto con dei metodi che salvano le apparenze della libertà, nei partiti dittatoriali con una repressione brutale e dichiarata.

il partito si è rivelato essere un ostacolo per la rivoluzione. E questo perchè esso vuol essere qualcosa di più di un organo di propaganda e di chiarificazione. Perchè si attribuisce come missione sua specifica quella di dirigere e di governare.

Infatti ogni volta che le masse sono intervenute per rovesciare un governo ed hanno in seguito affidato il potere a un nuovo partito, ci siamo trovati di fronte ad una rivoluzione borghese, alla sostituzione di una classe dominante con una nuova classe dominante. Così accade a Parigi nel 1830, quando la borghesia del denaro successe ai grandi proprietari fondiari, e nel 1848 quando la borghesia industriale prese il posto della borghesia finanziaria, mentre nel 1870 si installò al potere la borghesia nel suo insieme, sia la grande che la piccola.
Così accadde durante la rivoluzione russa, quando la burocrazia di partito si accaparro il potere in qualità di categoria incaricata dei compiti di governo.
Notas acerca da Fortaleza Vermelha

Rühle sobre a sua visita a URSS.

Russia was suffering in all of its limbs, from every disease

The Russian tactic is the tactic of authoritarian organisation. It has been so consistently developed and in the end carried to extremes, by the Bolsheviks to the fundamental principle of centralism that it has led to over-centralism.

Centralism is the organisational principle of the bourgeois-capitalist age. With it the bourgeois state and the capitalist economy can be built up. Not however the proletarian state and the socialist economy. They demand the council system.

On the contrary: these methods produce in an advanced proletariat such as the German exactly the opposite result. They strangle initiatives, paralyse the revolutionary activity, impair the combativeness, reduce the personal feeling of responsibility.

The necessary freedom therefore will however never be won in the coercive system of centralism, the chains of bureaucratic-militaristic control, under the burden of a leader-dictatorship and its inevitable accompaniments: arbitrariness, personality cult, authority, corruption, violence.

1 The communists are duty-bound to set themselves up in a rigid centralist, iron-hard, militaristic, dictatorial organisation.

2 The communists are duty-bound to take part in parliamentary elections, and to enter parliament to carry out a new type of revolutionary parliamentary work there.

3 The communists are duty-bound to remain in the trade unions so as to help the revolution to victory in these revolutionarily-transformable institutions.

(Otto Rühle. Report from Moscow, 1920)

sábado, julho 26, 2003

Situacionistas avant la lettre?

-Seria necessário organizar a vida de modo que cada instante tivesse uma certa significação - proferiu pensativo Arcádio

-Concordo! O que significa alguma coisa, ainda que seja um engano, é agradável. Com o que nada significa podemos ainda concordar... O mal consiste nessas mil e uma coisas sem valor algum, indignas de qualquer atenção e incômodos...

(Ivan Turgueniev. Pais e Filhos, XXI)

quarta-feira, julho 23, 2003

Notas acerca do último espasmo da revolução

O artigo de Ciliga é, sem dúvida, decepcionante. Pouco, ou quase nada, fala de relevante sobre as origens de Kronstadt, a sua significação e a relação com o bolchevismo e os vindouros processos de Moscou

Há um paralelo entre o que ocorrera em 1921 (Kronstadt) e o que ocorreu em 1938 (Processos de Moscou).

No inverno de 20-21 a revolução passava por uma fase crítica: a ofensiva contra a Polônia terminara com uma derrota, a revolução não estourara no Ocidente, a fome e a desorganização tomara conta do país inteiro.

O Partido decidira enfrentar a situação aumentando o poder da burocracia. Pediam por um bonapartismo proletário a fim de impedir a restauração burguesa.

Foi precisamente o fim da guerra que gerou a divisão da sociedade pós-revolucionária em dois: os burocratas e as massas.

(Ante Ciliga. The Kronstadt Revolt)

segunda-feira, julho 21, 2003

Quelque chose à détourner

A pólvora e a bombarda servem bem de metáfora à mercadoria e ao capital.

26.
Come trovasti, o scelerata e brutta
Invenzïon, mai loco in uman core ?
Per te la militar gloria è distrutta;
Per te il mestier de l'arme è senza onore;
Per te è il valore e la virtú ridutta,
Che spesso par del buono il rio migliore:
Non più la gagliardi, non più l'ardire
Per te può in campo al paragon venire.

27.
Per te son giti et anderan sotterra
Tanti Signori e Cavalieri tanti,
Prima che sia finita questa guerra,
Che'l mondo, ma più Italia ha messo in pianti;
Che s'io v'ho detto, il detto mio no erra,
Che ben fu il più crudele, e il più di quanti
Mai furo al mondo ingegni empii e maligni,
Ch'imaginò si abominosi ordigni.

(Ariosto. Orlando Furioso, Canto XI)
A queda dum anjo: a literatura portuguesa entre o paraíso das Serras e o degredo na Cidade


A queda dum anjo é uma novela de 1862 de um dos maiores nomes da literatura portuguesa, Camilo Castelo Branco. Como a própria data sugere, Camilo foi um dos expoentes do romantismo português, todavia A queda dum anjo não se encaixa facilmente sob o rótulo ultra-romântico.

A novela conta a história do venerando Calisto Elói, morgado das serras que, fora as atividades quotidianas, enterrava-se na sua biblioteca abarrotada de clássicos. Eram os clássicos gregos, latinos e lusos a sua vida, e era a mulher e prima, com quem se casara por mera inércia e tradição, que o arrastava às convenções sociais da província. A erudição e a loquacidade que aprendera com os clássicos dava-lhe idéias inusitadas, reclamava pela volta da velha moral, dos velhos costumes, da velha língua e das velhas leis lusitanas, quando retrucavam-lhe que as coisas haviam mudado bastante em 700, replicava afirmando que a verdade era sempre a mesma. Mas o morgado não era homem de palavras vazias, acreditava e agia segundo os seus clássicos.

A cultura, a retidão e a suas idéias classicistas levaram-no aos quarenta e quatro anos, ainda que a contragosto, ao parlamento em Lisboa. Lá ele choca a sociedade com seus hábitos e idéias rudes, com a sua indumentária e os seus discursos no parlamento, e acaba ganhando fama, como motivo de galhofa para uns, como motivo de admiração para os ultra-conservadores. Ele combate tenazmente na sua cruzada para moralização de Portugal, até que um mal inesperado o atinge: o amor, sentimento que lhe era completamente desconhecido, toma-o de assalto quando uma jovenzinha filha de um correligionário torna-se-lhe amiga. Ensandecido pelo amor ele paulatinamente transmuta-se num lisboeta modernoso, do mesmo jaez dos que ele antes desprezava. A menina que lhe foi a primeira paixão o refuta, mas ao coração do morgado nem é dado o tempo de esfacelar-se em lamúrias, uma deidade brasileira bate-lhe certa vez à porta pedindo ajuda, e ambos apaixonam-se loucamente.

A transmutação sofrida em virtude do amor, fá-lo afastar-se da sua região. A sua mulher, preocupada por não ter as suas cartas respondidas, ver seu marido gastando fortunas e nunca mais dar as caras na Agra, investiga e acaba por descobrir que seu marido mantinha como princesa a amante brasileira em Lisboa. Impelida pelas intrigas de um primo trambiqueiro desejoso de casar-se-lhe para abocanhar a sua riqueza, separam-se nada amistosamente Calisto e sua mulher. Ambos deixam a velha rudeza e ajustam-se aos novos tempos, saem do estado letárgico em que estiveram e passam a ser felizes.

A queda dum anjo ainda que escrita por um ultra-romântico, tem pouco de romantismo, tanto que recebe a alcunha de crítica social. Como o titulo deixa claro, o livro conta a história da queda de um anjo, Calisto, e também a sua mulher, que vivia num estado paradisíaco nas serras, quando vem para a cidade e é expostos aos achaques do amor é expulso do Éden e transforma-se em mais um de nós, pecadores filhos do pecador Adão. A temática do livro é semelhante a que outros escritores portugueses, como Garrett e Eça, que escreveram logo após o advento da revolução liberal, que iniciou a modernização portuguesa, trata da oposição entre as serras ainda puras e a decadente cidade, já enlevada pela avalanche capitalista. Aquele tipo singular que era o Calista torna-se o qualquer um, igual aos outros na cidade. Do indivíduo completo que era na agra, vira um ser vazio,que se vende e se adapta adequadamente à situação para manter seu amor, o íntegro, o integral, provinciano vira o político sem estofo que segue a moda, que faz o que lhe mandam fazer, tudo a fim de garantir a sua felicidade com a fidalga brasileira. É bem verdade que Camilo não trata a questão com a verve crítica dos seus pares, nem pinta tacitamente seja a cidade como o problema sejam as serras como a solução. Não, não cai ele num dualismo maniqueísta e panfletário, parece apenas apontar-nos ingenuamente o que se perdeu e o que se ganhou, ele somente conta a trajetória da queda de um anjo, não tem a pretensão de julgá-la.

A queda dum anjo é livro agradabilíssimo, escrito com uma linguagem rica e inteligente, é colorida e rica mas não é pedante e forçada, é um fluir gracioso e natural. Ainda que não seja uma obra propriamente romântica, não se escapa completamente do gênero, pelo contrário, apenas o enfoque não se dá precisamente no amor romântico, ainda que ele seja o eixo que sustente a narrativa. Enfim é uma obra excelente, a qual todo lusófono deve ler.

quinta-feira, julho 17, 2003

Notas sobre o último espasmo da revolução

Lênin e o Politbureau dirigiram toda a operação.

A Oposição foi contra as medidas tomadas contra os rebeldes, mas nada fez ou falou.

As “provas” dos bolcheviques de que Kronstadt havia sido planejado e teleguiado pela Entente baseiam apenas em clippings de jornais “burgueses” da Europa Ocidental. Se os bolcheviques realmente tivessem as provas, porque não fizeram julgamentos públicos dos revoltosos, mostrando indubitavelmente a Rússia e ao mundo que Kronstadt não passara de um putsch imperialista?

(Ida Mett. THE KRONSTADT UPRISING 1921, V. What was said at the time)

quarta-feira, julho 16, 2003

9. ?

Os marinheiros estavam decepcionados com todos os partidos políticos, pois os partidos desejam apenas tomar-se do poder, enquanto eles queriam livrar-se do poder.

O Comitê Provisório rejeitou a ajuda proposta por Tchernov, SR de direita e líder da Assembléia Constituinte.


(Ida Mett. THE KRONSTADT UPRISING 1921, V. What was said at the time)
7. A reação em Petrogrado

O Governo comprou apressadamente provisões, para subornar o proletariado de Moscou e Petrogrado.

Parte do operariado de Petrogrado continuou a greve durante os eventos de Kronstadt. Eles exigiam a liberação dos prisioneiros.

Em várias fábricas os operários recusaram-se a censurar Kronstadt ou abertamente se lhe aliaram.

Para conter as greves nas principais fábricas de Petrogrado, o governo demitiu os trabalhadores grevistas.

Em outras cidades greves também começaram a surgir, no entanto a repressão, as mentiras e o suborno dos bolcheviques conseguiram que Kronstadt ficasse isolada.

8. A batalha

Em 6 de março Trotsky lançou por rádio um apelo a Kronstadt, incitando os rebeldes a renderem-se ou sofrer as conseqüências.

Em 8 de março um avião soltou uma bomba sobre Kronstadt. Nos dias seguintes a cidade foi bombardeada pela artilharia, além de aviões.

O Comitê Revolucionário havia proibido uma incursão a uma cidade vizinha (Orinenbaum), apesar de seus estoques de munição e comida estarem baixos. Eles recusavam-se a disparar o primeiro tiro, esperando ganhar o apoio da Rússia inteira ao evitar o ataque.

A fortaleza tinha poucos homens, especialmente se comparado com a força que a atacou. No inverno ela era muito vulnerável, por causa do gelo.

As fileiras do Exército Vermelho não escondiam a sua reluta em combater os marinheiros de Kronstadt. Por isso tiveram de ser reorganizadas.

O Exército Vermelho atacou Kronstadt na noite de 8 de março. Um desastre.

O exército teve de ser reogarnizado, simpatizantes de Kronstadt foram transferidos ou severamente punidos, membros do Partido foram designados para diversos batalhões para agitar e vigiar. Apesar da repressão e da propaganda, ainda no dia 14 havia atos de insubordinação. Pequenos grupos rendiam-se e passavam a lutar por Kronstadt. Foram trazidos soldados de regiões longínquas, néscios da fama de Kronstadt.

Enquanto os assaltantes reorganizavam-se e fortaleciam-se, Kronstadt enfraquecia e cansava-se.

O assalto final contra Kronstadt deu-se na noite do dia 16 para 17 de março. Depois de tomados os fortes, começa a sangrenta luta nas ruas da cidade. O combate durou até a manhã do dia 18.

Após a vitória bolchevique, os tribunais revolucionários começaram o seu cruento trabalho.

(Ida Mett. THE KRONSTADT UPRISING 1921, IV. The Kronstadt Events - Background)

terça-feira, julho 15, 2003

5. Começa a revolução – O Comitê Revolucionário Provisório

Ante as ameaças do poder (Kouzmin e Vassillev), a assembléia decidiu formar um Comitê Revolucionário Provisório. A maioria dos seus membros era formada por marinheiros de longa data.

A primeira proclamação do Comitê dizia: “Estamos preocupados em evitar o derramamento de sangue. Nosso objetivo é criar através do esforço conjunto da cidade e da fortaleza as condições adequadas para eleições regulares e honestas para o novo soviet.”

No mesmo dia, os habitantes de Kronstadt ocuparam, sob a liderança do Comitê, posições estratégicas na cidade. A maioria dos destacamentos do Exército Vermelho uniram-se aos revoltosos.

6. A Reação Bolchevique

Os bolcheviques tentam fazer passar a idéia de que o movimento de Kronstadt era uma insurreição contra-revolucionária sob o comando de Kozlovsky e teleguiada pelo serviço secreto francês.

Kozlovsky era ex-oficial czarista e general de artilharia que permanecera em Kronstadt. Contudo, de modo algum comandou ou sequer simpatizou com a revolta.

Em 2 de março Kronstadt havia mandado uma delegação oficial para tratar com Lênin.

Em 7 de março o Governo lançou o ataque a Kronstadt.

O Comitê decidira armar os trabalhadores, e exigiu novas eleições para os sindicatos.

As bases bolcheviques desertaram em massa do Partido, aliando-se ao Comitê.

Durante a revolta nenhum bolchevique preso foi morto. E a vasta maioria permaneceu completamente livre.

Em Petrogrado, ao contrário, as famílias de marinheiros de Kronstadt foram presas como reféns.

Não houve terror em Kronstadt.


(Ida Mett. THE KRONSTADT UPRISING 1921, IV. The Kronstadt Events - Background)

sexta-feira, julho 11, 2003

Notas acerca do último espasmo da revolução

3. Contexto – A fome, as greves de Petrogrado

A população de Petrogrado havia diminuído em dois terços. Desde de fevereiro de 17 havia falta de comida, mas a situação vinha piorando progressivamente.

A burocracia só piorara a situação. Cada um buscava alimento do jeito que podia, sendo a permuta direta com os camponeses um dos meios mais comuns.

Os mercados haviam sido abolidas oficialmente, mas em praticamente todas as cidades havia mercados ilegais semi-tolerados. No verão de 1920 Zinoviev decretou ilegal toda atividade comercial, os pequenos negócios foram fechados, entretanto o Estado não tinha capacidade de suprir as cidades. Isso só piorou a situação, obstruindo quase todos os meios que as pessoas tinham para sustentar-se.

As habitações não eram aquecidas, e havia grande falta de roupas e calçados.

O salário dos operários em 1920 era apenas 9% do que fora em 1913.

A população começou a sair da capital, quem tinha parentes no campo para lá foi.

Isso mostra a falsidade da versão oficial, que diz terem sido as greves de Petrogrado causadas por camponeses.

A primeira greve estourou em 23 de fevereiro de 1921, e logo se espalhou pelas fábricas da cidade.

Os grevistas pediam medidas para melhorar o suprimento de comida, como restabelecimento dos mercados locais, liberdade de viajar em volta da cidade.

Mas também tinham exigências políticas, como liberdade de expressão, e a libertação de prisioneiros políticos.

Zinoviev decidiu usar a força para acabar com a greve.

No dia 24 de fevereiro foi montado um Comitê de Defesa pelo Partido, comitês similares foram montados nos distritos. No mesmo dia foi o Comitê declarou estado de sítio em Petrogrado. Foi estabelecido toque de recolher e todas as reuniões públicas sem o consentimento do Comitê foram proibidas.

O Partido mobilizou-se. Todos os líderes da greve foram presos.

4. A posição dos marinheiros de Kronstadt

No dia 26 os marinheiros de Kronstadt enviaram delegados para informar-se sobre a greve. A delegação voltou no dia 28.

Os marinheiros do Petropavlovsk lançaram uma resolução exigindo novas eleições para os soviets, liberdade de reunião e de expressão (para operários, camponeses, anarquistas e socialistas de esquerda), liberdade para formação de sindicatos, libertação dos prisioneiros políticos socialistas, reavaliação das prisões feitas, fim das seções políticas nas forças armadas, equalização das rações, abolição dos guardas do Partido, liberdade para os camponeses trabalharem a terra como quiserem.

Não só a fome fora a causa das greves, mas o desencantamento com a situação política. Os soviets tinham tornado-se órgãos do Partido, cada vez mais degenerado. Era contra o monopólio do Partido que reagiam os trabalhadores.

As idéias lançadas por Kronstadt eram debatidas por todos, e por expressar tais idéias muitos haviam sido mandados para as prisões ou campos de concentração.

O partido usava fundos estatais para aumentar a sua influência na polícia e nas forças armadas.

Kronstadt reclamava terem os trabalhadores perdido o controle para os bolcheviques, que o faziam através de um comissariado, o Rubkrin.

Kronstadt estava defendendo o mesmo que defendera em 1917.

O soviet de Kronstad devia ser renovado em 2 de março.

Os marinheiros reuniram-se no dia primeiro, onde foram divulgadas as notícias dos delegados enviados a Petrogrado, e a resolução dos marinheiros do 'Petropavlovsk' , sendo esta aceita pela assembléia, menos pelos representantes do Soviet e do Comitê Político da frota báltica. Foi também decidido o envio de novos delegados para Petrogrado, a recepção de delegados de Pretogrado, e uma nova reunião envolvendo diversos setores, como o exército e instituições estatais, para o dia seguinte.

No dia seguinte ocorreu a assembléia com o encontro dos delegados, onde foi aceita a resolução do Petropavlovsk. Foi preparada a eleição para o soviet, que deveria “preparar a reconstrução pacífica do regime soviético”.

(Ida Mett. THE KRONSTADT UPRISING 1921, IV. The Kronstadt Events - Background)

quinta-feira, julho 10, 2003

Notas acerca do último espasmo da revolução

A revolução russa mostra claramente o caráter contra-revolucionário do sacrifício. Os russos aceitaram sacrificar o seu presente em troca de um futuro prometido pela sua autoproclamada vanguarda. Acreditavam ser necessário postergar a revolução a fim de ganhar a guerra (deveriam ter notado que se a revolução não tem forças para ganhar a guerra ela já está perdida) e, a guerra ganha, deram-se conta que a revolução havia sido derrotada.
Notas acerca do último espasmo da revolução


1.Contexto geral – o fim da guerra, a fome e crise

A revolta de Kornstadt começou apenas três meses após o fim da guerra civil nas frentes européias.

A fome era crônica.

Sob a guerra, muitos aceitaram a disciplina férrea e os sacrifícios como sendo males necessários para vencê-la, mas a guerra já tinha sido vencida..

A burocratização do Estado e do Partido já atingia proporções avassaladoras. Os membros do Partido tinham vantanges e poderes, por serem hierarquicamente superiores, mesmo sobre revolucionários provados nos combates.

A produção industrial e agrícola, já baixa, diminuía.

Os operários com relações no campo iam eles próprios buscar víveres, confiscados caso descobertos pela milícia.

Os camponeses estavam sujeitos a requisições compulsórias.


2.Contexto Específico – Disciplinação das forças armadas e resistência dos marinheiros

Desde Brest-Litovski o governo vinha reestruturando as forças armadas, reintroduzindo a rígida disciplina que havia sido varrida pela revolução. Na marinha este processo fora mais lento, pois nela a tradição revolucionária era mais antiga e forte, além de que pouquíssimo oficiais aderiram à revolução.

As diferenças entre os marinheiros e o alto comando das forças armadas tornou-se, por isso, explosiva.

As tentativas de disciplinar a marinha causaram grandes protestos e descontentamento, mesmo entre o marinheiros do Partido.

Muitos bolcheviques pretendiam aplicar métodos militares para tratar dos problemas da vida quotidiana, especialmente na indústria e nos sindicatos.

No 10 congresso os marinheiros votaram contra os seus “líderes”, Trotsky e Raskolnikov, chefe da frota báltica.

Os marinheiros protestaram contra a situação abandonando em massa o Partido.


(Ida Mett. THE KRONSTADT UPRISING 1921, IV. The Kronstadt Events - Background)
Nota acerca do último espasmo da revolução

Os bolcheviques tentaram fazer passar a revolta de Kronstadt por um motim contra-revolucionário à soldo da França e sob o comando do general branco Kazlovski:

'An insurrection of White generals, with ex-general Kazlovski at its head' proclaimed the papers at the time.

"A new White Plot... expected and undoubtedly prepared by the French counter-revolution."

PRAVDA, March 3. 1921.

"White generals, you all know it, played a great part in this. This is fully proved."

Lenin, report delivered to the 10th Congress of the R.C.P. (B), March 8. 1921. Selected Works, vol. IX, p. 98.

(Ida Mett. THE KRONSTADT UPRISING 1921, III. Introduction to the French Edition)


terça-feira, julho 08, 2003

Espetáculo nosso de cada Dia

O que representam as entidades representativas? Nós, os representados, só sabemos o que elas representam quando elas decidem apresentar-se através de carta.

" As entidades representativas estavam distribuindo aos alunos cartas com o posicionamento de cada uma e convocando os estudantes para se mobilizarem na greve, participando das manifestações e apoiando os professores e servidores. "

domingo, julho 06, 2003

A Magnanimidade na Ética a Nicômaco

Escrito defronte à minaz aparição da Loucura.

Dentre a longa lista de excelências apresentada por Aristóteles na Ética a Nicômaco, a que chama mais atenção, talvez até mesmo pela própria grandeza do seu nome, é magnanimidade. Já que todas as excelências parecem submeter-se ou apequenar-se ante a magnanimidade. Antes, porém, de analisá-la especificamente, é preciso saber o que é uma excelência moral em geral, para assim, munidos do conceito de excelência moral, falarmos com justeza da magnanimidade.

Para Aristóteles, antes de tudo, a excelência moral não pode ser algo dado pela natureza. Se assim fosse, simplesmente certos homens nasceriam bons e outros maus, as nossas escolhas e atos apenas expressariam algo que já fora dado antes, o que não parece ser correto, já que temos sempre, a menos que condições externas impeçam-no, a possibilidade de escolher o quê e como agir. Por outro lado, tampouco reduz-se a excelência moral a mero conhecimento, já que o importante é não somente a conhecer, mas comportar-se de acordo com ela. Mas também não se a pode equiparar à ação, posto que é possível agir “virtuosamente” de maneira casual, enquanto a verdadeira ação moral deve ser não obra do acaso, mas resultado consciente de uma deliberação, deve provir não de uma paixão passageira, mas de uma sólida e inabalável disposição de agir moralmente.
A excelência moral está sem dúvida relacionada às emoções, mas também não se a pode reduzir a estas, pois ela não é meramente vivenciar determinada emoção, mas sim as vivenciar de certa maneira. Por conseguinte, Aristóteles define, quanto ao gênero, excelência moral como sendo uma disposição da alma, isto é, “estados de alma em virtude dos quais estamos bem ou mal em relação às emoções” (1105b). Claro que esta disposição não será uma qualquer, mas uma que torne o homem bom, uma disposição que leve a agir e emocionar-se não em excesso ou em demasiado comedimento, mas na justa medida, no termo médio entre o excesso e a falta. Assim a excelência moral é uma disposição da alma relacionada com a escolha de ações e emoções, consistindo num meio termo determinado pela razão. Determinado o que é a excelência moral, pode-se agora uma excelência particular, a magnanimidade.

A magnanimidade é a excelência moral da grandiosidade, isto é, uma disposição da alma aos grandes objetivos. Mas não se trata somente da tendência às grandes coisas, senão também da aptidão a alcançá-las. Assim, pessoas que são capazes de grandes realizações porém não aspirem a elas são pusilânimes, já as que, ao contrário, aspiram à grandeza mas não aptas a alcançá-la são pretensiosas. Se a pusilanimidade é a falta e a pretensão o excesso, a magnanimidade será o termo médio, em que as pessoas aspiram e são capazes de grandes coisas. Mede-se, portanto, a excelência e deficiência de magnitude no justo termo entre as pretensões e os méritos de cada pessoa, e as deficiências a ela relacionada não tornam a pessoa má, apenas as faz erradas. Das duas deficiências morais ligadas à magnanimidade, a que erra por falta é considerada por Aristóteles a pior. O pusilânime priva-se do que merece, isto é, de honrarias, bens materiais e ações nobilitantes, por considerar-se indigno, realmente, o retraimento de alguém que é capaz parece ser pior do que a expansividade de um incapaz, que logo que for posto à prova mostrará a sua incapacidade. Mas, aqui também, os ouvidos hodiernos sentem um certo desconforto, para nós parece ser mais valoroso o humilde, ou mesmo o excessivamente humilde, do que o jactante. É importante notar que pessoas que não têm grandes pretensões e também não tem grandes capacidades, e age, por conseguinte, de acordo com as suas possibilidades, é uma pessoa moderada, e não magnânima ou viciosa. Entretanto, ao definir a magnanimidade, Aristóteles vai além, associando-a à busca de honrarias, isto é, as pessoas magnânimas agiriam tendo em vista as honrarias, de conformidade com os seus próprios méritos. Dar-se-ia tal coisa por serem as honrarias os maiores bens exteriores a alcançar. Ora, isso, para nós homens modernos, soa demasiado estranho, já que o magnânimo deveria aspirar a grandes coisas tendo em vista nada mais do que a grandeza, e não as recompensas recebidas em troca de uma grandiosa ação, ao contrário, uma pessoa parece-nos mais magnânima quanto mais desconhecidas e desprezadas foram as suas grandes realizações. Contudo, Aristóteles também diz que as pessoas magnânimas não dão grande importância às honrarias, aceitam-nas como se recebessem apenas o que lhes é devido, e por isso muitas vezes parecem ser soberbas. Além disso, a magnanimidade caracteriza-se por ser como uma espécie de coroamento da excelência moral, pois a verdadeira magnanimidade exige a grandeza de todas as excelências morais, não se pode pensar em um magnânimo covarde ou em um magnânimo avaro, o que é muito difícil. Aliás, hoje nos parece praticamente impossível a magnanimidade em tal grau, e qualificamos como magnânimo quem tenha realizado grandes coisas, ainda que fraquejasse em algumas excelências, não temos, por exemplo, receios em qualificar um artista como magnânimo, mesmo que fosse concupiscente e incontinente.

As pessoas magnânimas não anseiam pelo perigo, mas também quando nele se vêem não se preocupam com a própria vida. Elas gostam de conceder favores, mas não de pedi-los. Comportam-se de maneira altiva ante pessoas que ocupam posições elevadas, mas são corteses em relação aos mais moderados. Elas não ambicionam as mesmas coisas que a maioria, ou em que há pessoas que lhes são superiores, e são displicentes e discretas, além de serem incapazes de viver em função de outras pessoas. Também não são de muitas palavras, seja para elogiar seja para censurar, falam sempre a verdade e deixam claro os seus sentimentos, já que não têm nada a esconder e sentem certo desdém pelos outros. Nada para elas é grande, por isso não costumam admirar outros, e, o que é bastante interessante, não guardam erros na memória, “pois uma memória implacável não é sinal de magnanimidade, especialmente em relação a erros”(EN, 1125a), hoje diríamos que o magnânimo é justamente o que é consciente dos seus fracassos e não simplesmente o que se esquece deles. Não dão importância às disputas triviais e preferem coisas belas sem grande valor venal a coisas valiosas e úteis.

É razoável concordar que a excelência moral é uma disposição da alma relativa ao meio termo de ações e emoções, porém a definição prática do que são meio termo, excesso e falta revela-se problemática. Depois do cristianismo e todas as outras mudanças que ocorreram no Ocidente, a determinação desta “métrica moral” para nós não é mais a mesma da visão grega de Aristóteles. É bem, entretanto, verdade que o próprio Aristóteles alerta repetidamente para o caráter inexato e particular típico da ética, e que, por exemplo, a noção aristotélica de magnanimidade é bem próxima da atual.