A Magnanimidade na Ética a Nicômaco
Escrito defronte à minaz aparição da Loucura.
Dentre a longa lista de excelências apresentada por Aristóteles na Ética a Nicômaco, a que chama mais atenção, talvez até mesmo pela própria grandeza do seu nome, é magnanimidade. Já que todas as excelências parecem submeter-se ou apequenar-se ante a magnanimidade. Antes, porém, de analisá-la especificamente, é preciso saber o que é uma excelência moral em geral, para assim, munidos do conceito de excelência moral, falarmos com justeza da magnanimidade.
Para Aristóteles, antes de tudo, a excelência moral não pode ser algo dado pela natureza. Se assim fosse, simplesmente certos homens nasceriam bons e outros maus, as nossas escolhas e atos apenas expressariam algo que já fora dado antes, o que não parece ser correto, já que temos sempre, a menos que condições externas impeçam-no, a possibilidade de escolher o quê e como agir. Por outro lado, tampouco reduz-se a excelência moral a mero conhecimento, já que o importante é não somente a conhecer, mas comportar-se de acordo com ela. Mas também não se a pode equiparar à ação, posto que é possível agir “virtuosamente” de maneira casual, enquanto a verdadeira ação moral deve ser não obra do acaso, mas resultado consciente de uma deliberação, deve provir não de uma paixão passageira, mas de uma sólida e inabalável disposição de agir moralmente.
A excelência moral está sem dúvida relacionada às emoções, mas também não se a pode reduzir a estas, pois ela não é meramente vivenciar determinada emoção, mas sim as vivenciar de certa maneira. Por conseguinte, Aristóteles define, quanto ao gênero, excelência moral como sendo uma disposição da alma, isto é, “estados de alma em virtude dos quais estamos bem ou mal em relação às emoções” (1105b). Claro que esta disposição não será uma qualquer, mas uma que torne o homem bom, uma disposição que leve a agir e emocionar-se não em excesso ou em demasiado comedimento, mas na justa medida, no termo médio entre o excesso e a falta. Assim a excelência moral é uma disposição da alma relacionada com a escolha de ações e emoções, consistindo num meio termo determinado pela razão. Determinado o que é a excelência moral, pode-se agora uma excelência particular, a magnanimidade.
A magnanimidade é a excelência moral da grandiosidade, isto é, uma disposição da alma aos grandes objetivos. Mas não se trata somente da tendência às grandes coisas, senão também da aptidão a alcançá-las. Assim, pessoas que são capazes de grandes realizações porém não aspirem a elas são pusilânimes, já as que, ao contrário, aspiram à grandeza mas não aptas a alcançá-la são pretensiosas. Se a pusilanimidade é a falta e a pretensão o excesso, a magnanimidade será o termo médio, em que as pessoas aspiram e são capazes de grandes coisas. Mede-se, portanto, a excelência e deficiência de magnitude no justo termo entre as pretensões e os méritos de cada pessoa, e as deficiências a ela relacionada não tornam a pessoa má, apenas as faz erradas. Das duas deficiências morais ligadas à magnanimidade, a que erra por falta é considerada por Aristóteles a pior. O pusilânime priva-se do que merece, isto é, de honrarias, bens materiais e ações nobilitantes, por considerar-se indigno, realmente, o retraimento de alguém que é capaz parece ser pior do que a expansividade de um incapaz, que logo que for posto à prova mostrará a sua incapacidade. Mas, aqui também, os ouvidos hodiernos sentem um certo desconforto, para nós parece ser mais valoroso o humilde, ou mesmo o excessivamente humilde, do que o jactante. É importante notar que pessoas que não têm grandes pretensões e também não tem grandes capacidades, e age, por conseguinte, de acordo com as suas possibilidades, é uma pessoa moderada, e não magnânima ou viciosa. Entretanto, ao definir a magnanimidade, Aristóteles vai além, associando-a à busca de honrarias, isto é, as pessoas magnânimas agiriam tendo em vista as honrarias, de conformidade com os seus próprios méritos. Dar-se-ia tal coisa por serem as honrarias os maiores bens exteriores a alcançar. Ora, isso, para nós homens modernos, soa demasiado estranho, já que o magnânimo deveria aspirar a grandes coisas tendo em vista nada mais do que a grandeza, e não as recompensas recebidas em troca de uma grandiosa ação, ao contrário, uma pessoa parece-nos mais magnânima quanto mais desconhecidas e desprezadas foram as suas grandes realizações. Contudo, Aristóteles também diz que as pessoas magnânimas não dão grande importância às honrarias, aceitam-nas como se recebessem apenas o que lhes é devido, e por isso muitas vezes parecem ser soberbas. Além disso, a magnanimidade caracteriza-se por ser como uma espécie de coroamento da excelência moral, pois a verdadeira magnanimidade exige a grandeza de todas as excelências morais, não se pode pensar em um magnânimo covarde ou em um magnânimo avaro, o que é muito difícil. Aliás, hoje nos parece praticamente impossível a magnanimidade em tal grau, e qualificamos como magnânimo quem tenha realizado grandes coisas, ainda que fraquejasse em algumas excelências, não temos, por exemplo, receios em qualificar um artista como magnânimo, mesmo que fosse concupiscente e incontinente.
As pessoas magnânimas não anseiam pelo perigo, mas também quando nele se vêem não se preocupam com a própria vida. Elas gostam de conceder favores, mas não de pedi-los. Comportam-se de maneira altiva ante pessoas que ocupam posições elevadas, mas são corteses em relação aos mais moderados. Elas não ambicionam as mesmas coisas que a maioria, ou em que há pessoas que lhes são superiores, e são displicentes e discretas, além de serem incapazes de viver em função de outras pessoas. Também não são de muitas palavras, seja para elogiar seja para censurar, falam sempre a verdade e deixam claro os seus sentimentos, já que não têm nada a esconder e sentem certo desdém pelos outros. Nada para elas é grande, por isso não costumam admirar outros, e, o que é bastante interessante, não guardam erros na memória, “pois uma memória implacável não é sinal de magnanimidade, especialmente em relação a erros”(EN, 1125a), hoje diríamos que o magnânimo é justamente o que é consciente dos seus fracassos e não simplesmente o que se esquece deles. Não dão importância às disputas triviais e preferem coisas belas sem grande valor venal a coisas valiosas e úteis.
É razoável concordar que a excelência moral é uma disposição da alma relativa ao meio termo de ações e emoções, porém a definição prática do que são meio termo, excesso e falta revela-se problemática. Depois do cristianismo e todas as outras mudanças que ocorreram no Ocidente, a determinação desta “métrica moral” para nós não é mais a mesma da visão grega de Aristóteles. É bem, entretanto, verdade que o próprio Aristóteles alerta repetidamente para o caráter inexato e particular típico da ética, e que, por exemplo, a noção aristotélica de magnanimidade é bem próxima da atual.
domingo, julho 06, 2003
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