terça-feira, julho 29, 2008

[Prê-à-parler]

A dizer quando se deseja expressar o desgosto por certo tipo de discussão:
"voler ciò udire è bassa voglia." (Dante. Inferno, Canto XXX)

domingo, julho 27, 2008

Silêncio

A mística indiana sempre nos exalta a silenciar a mente. Tentarei fazê-lo, e portanto silenciarei também isto aqui.

sexta-feira, julho 25, 2008

Nota explicativa

Já quase me esquecia. Sim, era para tudo ter acabado esta semana, no entanto no dia planejado para a partida aconteceu um imprevisto. Eu esperava ter para mim a tarde inteira, mas alguém apareceu inesperadamente, por isso tive que adiar a minha saída. Subestimei a Fortuna, pregou-me ela uma peça. Foi uma lição de humildade, e aprendi que a nós não é dado considerarmo-nos iguais aos deuses.

quinta-feira, julho 24, 2008

Mais respostas a ninguém

A Signorina Contessa pergunta jocosamente ao Marxóide Promíscuo se ele não lhe arrumaria um emprego na fabricação de bebidas alcoólicas. Ele jocosamente lhe responde perguntando se ela queria cortar cana. Eu responderia algo assim: "Na fabricação de alcoólicos? Eu gostaria de fazer como nos romances: te seqüestrar da casa de teus pais e te levar para algum canto perdido na Itália, onde teríamos uma pequena vinícola, e passaríamos o tempo perdidos do mundo, bebendo vinho, escutando Boccherini e Viotti, lendo Ariosto e Petrarca. Mas te sabendo pouco amiga do vinho e da vida bucólica, o que eu faria é te arrumar um belo emprego em algum fabricante de vodca. Iríamos para São Petersburgo, e no verão caminharíamos sob o sol noturno ao longo do Nevá, e no inverno iríamos ao balé ou ficaríamos quietos em casa, longe do frio, tomando chá e lendo Púshkin. Hein, que te parece?"

terça-feira, julho 22, 2008

Ça finit aujourd'hui

Uns tempos atrás o Tavernier fez um filme que se chamava 'Ça commence aujoud'hui'. Pois para mim ça finit aujourd'hui. O gosto do nada venceu. Mais à noite, no momento apropriado, eu me liberto do jugo da Fortuna.

Perigosa coleção de solecismos a ser evitada pelas almas delicadas e ciosas da boa gramática

Hoje descobri que se amigaram a Signorina Contessa e o Marxóide Promíscuo. Duas ou três semanas após conhecerem-se e já se amavam por toda a eternidade. Preterido ainda mais uma vez pelo Marxóide Promíscuo, quem diria! Mas fazem lá um bom par, há que reconhecer.

E por que eu resolvi falar disso? Não sei. É que do mundo dos vivos já nada me causa curiosidade, e a Signorina Contessa era uma das coisas que me davam algum alento para continuar arrastando-me por aqui. O contato com as suas frivolidades e expansões representava uma novidade que dava algum sustento à minha alma quebrantada. Curiosidade rasa, é preciso dizer, mas alguma curiosidade de qualquer modo. Se antes eu permanecia entre os vivos pela curiosidade de ver o que aconteceria no dia seguinte, agora que a curiosidade já não mais me acompanha, falta-me qualquer motivo para flutuar por aqui neste mundo. Talvez venha daí o interesse que ela me causa, foi o último lampejo de vida a atingir-me os olhos. Que me resta a não ser cantar com Schubert:
O komme Tod, und löse diese Bande!
Ich lächle dir, o Knochenmann,
Entführe mich leicht in geträumte Lande,
O komm und rühre mich doch an.


Sabendo que a Morte não é senão serva da Fortuna, e que a Fortuna é surda a todo rogo, é vão tentar seduzi-la por cantos, é preciso agir por si mesmo. Pois se me escapa a curiosidade pelos vivos, resta-me ainda a curiosidade última, a curiosidade pelo nada.

domingo, julho 20, 2008

Resposta engraçadinha a alguém que nunca conheci e a uma discussão de que jamais participei, ou do vegetarianismo

Ao que parece todos aqui anseiam pelas tuas carnes, grande Boi. Mas de mim nada tens a temer, que das tuas entranhas prefiro a distância. Não me leves a mal, digo-o respeitosamente, tenho certeza que o mais refinado dos gastrônomos ficaria admirado de tua carne. É que sou esteticamente impossibilitado de comer tudo que tem sangue e palpita, tudo que sofre e deseja, tudo que foi arrancado da grandiosidade ilimitada do nada e atirado a este mundo de limites, condenado a
sofrer prazer e dor. Se for verdade que não estou absolutamente sozinho e que, sendo humano, nada do que é humano é-me estranho, então sou forçado a expandir o argumento e dizer: sofro, nada do que sofre é-me estranho.

terça-feira, julho 08, 2008

Do fardo do suicida

Os suicidas podem ser definidos como pessoas que carregam um eterno e fatigante manto, o manto da deficiência física, moral ou intelectual.

Oh in etterno faticoso manto! (Dante. Inferno, Canto XXIII