segunda-feira, julho 21, 2003

A queda dum anjo: a literatura portuguesa entre o paraíso das Serras e o degredo na Cidade


A queda dum anjo é uma novela de 1862 de um dos maiores nomes da literatura portuguesa, Camilo Castelo Branco. Como a própria data sugere, Camilo foi um dos expoentes do romantismo português, todavia A queda dum anjo não se encaixa facilmente sob o rótulo ultra-romântico.

A novela conta a história do venerando Calisto Elói, morgado das serras que, fora as atividades quotidianas, enterrava-se na sua biblioteca abarrotada de clássicos. Eram os clássicos gregos, latinos e lusos a sua vida, e era a mulher e prima, com quem se casara por mera inércia e tradição, que o arrastava às convenções sociais da província. A erudição e a loquacidade que aprendera com os clássicos dava-lhe idéias inusitadas, reclamava pela volta da velha moral, dos velhos costumes, da velha língua e das velhas leis lusitanas, quando retrucavam-lhe que as coisas haviam mudado bastante em 700, replicava afirmando que a verdade era sempre a mesma. Mas o morgado não era homem de palavras vazias, acreditava e agia segundo os seus clássicos.

A cultura, a retidão e a suas idéias classicistas levaram-no aos quarenta e quatro anos, ainda que a contragosto, ao parlamento em Lisboa. Lá ele choca a sociedade com seus hábitos e idéias rudes, com a sua indumentária e os seus discursos no parlamento, e acaba ganhando fama, como motivo de galhofa para uns, como motivo de admiração para os ultra-conservadores. Ele combate tenazmente na sua cruzada para moralização de Portugal, até que um mal inesperado o atinge: o amor, sentimento que lhe era completamente desconhecido, toma-o de assalto quando uma jovenzinha filha de um correligionário torna-se-lhe amiga. Ensandecido pelo amor ele paulatinamente transmuta-se num lisboeta modernoso, do mesmo jaez dos que ele antes desprezava. A menina que lhe foi a primeira paixão o refuta, mas ao coração do morgado nem é dado o tempo de esfacelar-se em lamúrias, uma deidade brasileira bate-lhe certa vez à porta pedindo ajuda, e ambos apaixonam-se loucamente.

A transmutação sofrida em virtude do amor, fá-lo afastar-se da sua região. A sua mulher, preocupada por não ter as suas cartas respondidas, ver seu marido gastando fortunas e nunca mais dar as caras na Agra, investiga e acaba por descobrir que seu marido mantinha como princesa a amante brasileira em Lisboa. Impelida pelas intrigas de um primo trambiqueiro desejoso de casar-se-lhe para abocanhar a sua riqueza, separam-se nada amistosamente Calisto e sua mulher. Ambos deixam a velha rudeza e ajustam-se aos novos tempos, saem do estado letárgico em que estiveram e passam a ser felizes.

A queda dum anjo ainda que escrita por um ultra-romântico, tem pouco de romantismo, tanto que recebe a alcunha de crítica social. Como o titulo deixa claro, o livro conta a história da queda de um anjo, Calisto, e também a sua mulher, que vivia num estado paradisíaco nas serras, quando vem para a cidade e é expostos aos achaques do amor é expulso do Éden e transforma-se em mais um de nós, pecadores filhos do pecador Adão. A temática do livro é semelhante a que outros escritores portugueses, como Garrett e Eça, que escreveram logo após o advento da revolução liberal, que iniciou a modernização portuguesa, trata da oposição entre as serras ainda puras e a decadente cidade, já enlevada pela avalanche capitalista. Aquele tipo singular que era o Calista torna-se o qualquer um, igual aos outros na cidade. Do indivíduo completo que era na agra, vira um ser vazio,que se vende e se adapta adequadamente à situação para manter seu amor, o íntegro, o integral, provinciano vira o político sem estofo que segue a moda, que faz o que lhe mandam fazer, tudo a fim de garantir a sua felicidade com a fidalga brasileira. É bem verdade que Camilo não trata a questão com a verve crítica dos seus pares, nem pinta tacitamente seja a cidade como o problema sejam as serras como a solução. Não, não cai ele num dualismo maniqueísta e panfletário, parece apenas apontar-nos ingenuamente o que se perdeu e o que se ganhou, ele somente conta a trajetória da queda de um anjo, não tem a pretensão de julgá-la.

A queda dum anjo é livro agradabilíssimo, escrito com uma linguagem rica e inteligente, é colorida e rica mas não é pedante e forçada, é um fluir gracioso e natural. Ainda que não seja uma obra propriamente romântica, não se escapa completamente do gênero, pelo contrário, apenas o enfoque não se dá precisamente no amor romântico, ainda que ele seja o eixo que sustente a narrativa. Enfim é uma obra excelente, a qual todo lusófono deve ler.

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