"De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra"
Viagens na Minha Terra é um brilhante e precursor livro, escrito em 1849 por Almeida Garrett, é obra que não se restringe a nenhuma classificação, não cabe em nenhuma dos bem organizados fichários dos arquivistas. Filosofia, história, política, religião, crítica social, literatura, todos as áreas das chamadas humanidades misturam-se numa explosão efervescente de idéias inapreensível à estreita mente dos especialistas.
No livro o autor narra a sua viagem de Lisboa a Santarém, mas não do tradicional modo, como se espera que seja um livro de viagens, mas em uma séria de digressões entremeadas, que, em um tom aberto, jocoso, livre, despreocupado, nos levam à Santarém em meio a uma verdadeira inundação de pensamentos intuitivos e que andam aos saltos. Garrett vai da crítica da literatura, sim critica da literatura e não crítica literária, às relações entre vinho português e o sucesso da Inglaterra, da filosofia à destruição do patrimônio histórico de Portugal.
Como não poderia deixar de ser, há também diluída no texto uma história romântica, que se a princípio parece estranha e inimiga do restante da narrativa, como se fossem apenas feios e tediosos intermezzos que o autor inserira artificialmente no livro, seja para torná-lo mais vendável, seja por falta de coragem, ou mesmo por falta de inspiração, aos poucos nos envolve e mostra sua ligação íntima com as outras partes da obra.
Nesta obra prima da literatura lusófona, Garrett usa um linguajar solto, até então inédito, e que, além de todas as divagações, mostra-nos um Portugal consciente de que se havia perdido na História, que nos faz lembrar que apesar de todas as nossas especificidades, somos autênticos descendentes de portugueses, no que nisto há de ruim, mas também no que há de bom.
quinta-feira, dezembro 19, 2002
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