sábado, maio 17, 2003

Cinna, de Corneille

Nesta peça o grande clássico francês mostra toda a sua força, toda a sua genialidade. Em impecáveis versos a clemência de Augusto é ilustrada, assim como todas as asquerosas idéias de seu autor.

Emília é filha de C. Toranius, antigo tutor de Augusto, cuja proscrição pelo próprio imperador faz-lhe nascer um inquebrantável ódio, que só aumenta quando ela é adotada pelo imperador como filha. A vingativa nova filha de Otávio convence, ou seduz, Cinna, filho de Pompeu, o seu amante, a liderar uma conspiração contra Otaviano. Cinna, por sua vez, também é um dos preferidos do tirano, mas em vez de detestá-lo, como seu parentesco faria crer, tem-lhe sentimentos amistosos, não só ao tirano, mas também à tirania. Dá-se aí o primeiro conflito, Cinna vê-se dividido entre a chama do amor e a sua amizade e gratitude. Mas é o fogo das paixões, incitado por Emília, que se alastra e aniquila a consciência moral de Cinna. Isto é, as mulheres, intrinsecamente más, corrompem os homens, afastando-os do reto caminho. E assim também as paixões, igualmente más, além de dominantes na mulher, subjugam a razão e transformam o homem numa besta qualquer.

Contudo, esta avalanche de irracionalidade será contida pela clemência do déspota. Máximo, íntimo amigo de Cinna e líder da conjuração, também é apaixonado por Emília. Quando o pompeida confessa que somente a lidera por amor a Emília, Máximo é tomado pelos ciúmes e, encorajado por seu lacaio, torna-se um traidor, esperando que, com a morte de Cinna, seja-lhe mais fácil conquistar o amor de Emília. Assim o ditador é prevenido da conspiração, mas, em toda a sua bondade cristã, acaba por perdoar Cinna, Emília e Máximo. A luminosa clemência do monarca livra das trevas as almas reféns das paixões, levando-as ao bom caminho.

Não há como negar, a peça de Corneille é sublime, perfeita, plena. Qual será o segredo que faz com que uma peça com mensagens tão repugnantes seja ao mesmo tão bela e arrebatadora?

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