Aristóteles, Platão, e o bem-em-si
Escrito sob a ameaça de um cano de revólver enconstado na têmpora direita
Aristóteles, como bem se sabe, foi discípulo de Platão, portanto, quando menciona na sua obra a existência de um bem supremo não seria estranho se, de algum modo, se este sumo bem fosse confundido com a Idéia de bem dos platônicos. Contudo, o bem supremo aristotélico e o Bem platônico são noções muito diferentes, e é o próprio Aristóteles que procura explicitar esta diferença no primeiro livro da Ética a Nicômaco.
A idéia de um Bem em si, uma forma pura e única, situada num mundo inteligível, da qual todos os bens particulares participam, e que só por isso reconhecemo-los como bens, era para o estagirita algo muito improvável. A crítica dele fundamenta-se essencialmente no seguinte argumento: não é possível existir uma forma única de bem, pois o bem não é um conceito universal, ou seja, não existe um conceito genérico de bem no qual estejam contidos os conceitos de todos os bens particulares. Ora, olhando com atenção, percebe-se que o termo “bem” é usado de muitas maneiras diferentes, entre “nadar bem”, “uma boa mesa” e “uma boa amizade” é realmente difícil, senão impossível, encontrar algo que seja comum a estes bens, afinal, as características que tornam uma mesa boa são certamente bem distintas das que tornam uma amizade boa, isto é, este algo que torna as coisas boas é específico para cada tipo de coisa. Deste modo, pode-se mesmo verificar que “o termo ‘bem’ tem tantas acepções quanto ‘ser’” (EN, 1096a). Ou, numa terminologia mais técnica, o bem não é um gênero, posto que é predicado de todas as categorias. Assim, usando os exemplos dados por Aristóteles, o bem pode ser predicado de uma substância, como de Deus, ou ainda da categoria de qualidade, como as excelências, da de quantidade, como o que é moderado, da de relação, com o útil, da de tempo, como o tempo oportuno, da de lugar, como a localidade conveniente, e assim por diante. Portanto o bem não pode ser algo universal e único, pois para sê-lo deveria ser predicado de apenas uma categoria.
Além disso, como há uma ciência correspondente a cada Idéia, deveria haver uma ciência única do bem, entretanto, o fato é que existem diversas ciências, mesmo do bem em uma determinada categoria. A localidade adequada é estudada, na guerra, pela estratégia, mas também, na construção, pela arquitetura. Mesmo nos bens que são bons em si, desejados por si mesmos, como a inteligência e as honrarias, não se consegue encontrar uma noção comum que os englobe. Por fim, resta ainda uma questão, se de fato existem diversos bens, uns distintos dos outros, como que lhes aplicamos o mesmo nome? Nós chamamos a todos de bem, e certamente não é por acaso que assim procedemos. Aristóteles nos dá três alternativas, das quais uma parece ser a mais correta. Chamamos os diversos bens da mesma maneira, não porque sejam uma só coisa, mas por analogia. Por exemplo, assim como a visão é boa no corpo, a razão é boa na alma.
Aristóteles refuta assim a Idéia universal e única de bem, cabe-lhe então apresentar o seu próprio conceito de bem. Ao contrário de Platão, que parte do inteligível para o sensível, Aristóteles procurará fundamentar a sua noção de bem a partir das coisas mesmas. Partindo daí, notará que toda atividade, todo propósito visa algum fim, e esse fim é algum bem, já que os homens realizam as ações buscando algum bem. Claro que, como foi dito, cada atividade terá em vista um bem diferente, contudo, se há um fim a que todas as coisas visam, este será o melhor fim, ou o bem supremo. Sendo assim, é preciso que este último fim seja algo desejável por si mesmo, sendo tudo o mais desejado em função dele, pois caso contrário cair-se-ia numa sucessão infinita que acabaria por pulverizar e desfazer o próprio bem. Das coisas que aparentam ser desejáveis por si mesmas, a felicidade parece ocupar o mais alto grau, já que não a perseguimos para alcançar outra coisa que não ela mesma, não temos nenhum outro objetivo em alcançar a felicidade senão sermos felizes.
A noção aristotélica de bem supremo e a platônica de bem em si são, portanto, incompatíveis. Platão coloca fora do mundo um único e universal Bem, do qual todos os bens particulares participam. Por sua vez, Aristóteles vê que não é possível reunir todos os bens dentro de um único conceito de bem, já que o bem pode ser predicado de tantas categorias quanto o ser. Destarte, só podemos falar de bem por analogia. O bem supremo é, então, um bem que é bom em si, e ao qual todos os outros bens são subordinados, mas que é algo diferente e separado destes outros bens.
segunda-feira, maio 26, 2003
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