quinta-feira, janeiro 30, 2003

Mais um dia de tédio, miséria e desesperança arrasta-se diante de mim, preso em incontáveis correntes que de tão pequenas, de tão sutis, de tão usuais tornam-se-me invisíveis. Ainda que consiga identificar eventualmente uma ou outra, que, individualmente, pode ser facilmente arrebentada, o emaranhado completo continua inatingido, a totalidade da teia que impede o livre movimento continua intacta, e eventualmente a aranha parasita que suga toda a nossa vitalidade reconstrói os elos partidos. Seja enquanto estamos debatendo-nos com outras partes da sua teia, seja quando o cansaço, o desespero ou a passividade faz-nos cair em letargia profunda, dando assim tempo para a sangue-suga reparar a teia infame e continuar o seu trabalho asqueroso.

Ó Humanidade, para onde foste? Depois de bravos séculos, da diligente coleta de sementes na savana africana à alucinante explosão de criatividade da revolução moderna, caíste, após ardorosa luta, é verdade, refém da tua própria imaginação. Deixaste-te agrilhoar por uma mera e estúpida abstração que tu mesma criaste e que hoje chupa ominosamente teu sangue. Sangue esse outrora rubro de vida, hoje mera bebida pré-preparada que se compra em supermercados, quase tão vil quanto a asquerosa criatura que dele alimenta-se.

Ó Humanidade, não sei se ainda podes recuperar-te, se ainda há tempo para acordares e esmagar com as tuas mãos milenares este detestável parasita que nos enlaçou em suas macabras teias. Parece-me que só nos resta a morte hedionda, a morte vergonhosa, a morte dos que nunca viveram.

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