sábado, agosto 02, 2003

A questão, que escrever? Os dias alongam-se, o tédio aprofunda-se, no arrastar-se vivo-morrente da mediocridade da vida, ou melhor, da morte-vivente quotidiana só nos resta a opção derradeira, entenda-se aí o que se quiser. Com efeito, Epicuro estava corretíssimo: a morte nada nos é, esqueceu-se contudo, ou talvez nem se lhe afigurasse naqueles bravos tempos em que os homens eram homens, deste estado que assustadoramente aprisiona os homens-mercadoria: a morte-viva, a aniquilação da vida ativa, altiva, pelo tempo morto, a transfiguração daqueles anthropoi em autômatos. Nossa consciência, nosso efetivo eu aquela e mais alta e mais nobre parte da alma acorrentou-se a si mesma e reduziu-se a servil escrava de seus próprios fantasmas. O fetiche da mercadoria revelou-se o mais macabro dos demônios, até os antigos radicais anticlericais sonham com os bons tempos da velha Igreja, com o seu assaz saudável e inofensivo fetiche.

Nada, nada nos cabe a não ser spectare. Morreu a humanidade, por que diabos continuamos nós insignificantes fantasmas rondando por esta terra desolada?

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