Recentemente um destes seres ativos, construtores de pontes e prédios, em meio à desconcertante e desvairada discussão que se costuma chamar filosófica, acusou a filosofia de nada fazer, de ser mera discussão estéril, vazia, morta. Cabe não discutir o mundo, mas transformá-lo, é o que diria certamente se tivesse lido mais antes de partir à ação. Pois aos sequazes da ação pergunto eu, que fez Sócrates? Aquele irritante e ignorantíssimo ateniense, que passava os dias a discutir, sem nunca chegar a lugar algum, sem nunca propor tese alguma, sem fundar escola alguma, sem nunca ter escrito uma linha sequer. Teria ele realmente nada feito? seria tão-somente um tagarela incontrolável, inútil, desprezível, insignificante? Se o importante é a ação, e ação pensada unicamente como ação positiva, construção de objetos sensíveis, atuação direta no meio, Sócrates foi dos mais desimportante dos humanos que passaram pela terra, é bem verdade que foi grande soldado e cidadão, e portanto fez algo naquele sentido estrito, mas certamente existiram outros grandes soldados e cidadãos, cuja obra, todavia, aos homens pareceu tão ínfima que não cuidaram de guardar-lhes nem mesmo os nomes. Porém cuidaram diligentemente de guardar a Sócrates não só o nome, mas todo o resto.
Agrade ou não, Sócrates é um dos poucos pais do Ocidente, fez o seu não-fazer este gigante que hoje chamamos Civilização Ocidental, belo ou feio, bom ou ruim, reverendo ou detestando, gigante de todo modo, marco indelével, impossível de ser ignorado.
quinta-feira, agosto 05, 2004
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