terça-feira, março 18, 2003

Kino - Méliès, o mago louco da câmera

Georges Méliès (1861-1938) foi um dos primeiros realizadores da história do cinema, podendo ser mesmo tido como um dos fundadores do cinema enquanto arte.

Méliès fez literalmente centenas de filmes, em que o seu passado de mágico somado à incrível criatividade ligada ao absurdo e ao fantástico e um tremendo saber técnico fazem não só com que Méliès seja um grande mestre, mas também com que os seus filmes sejam extremamente instigantes ainda hoje.

A sua obra, contudo, ainda é fortemente baseada no teatro. Vendo seus filmes tem-se a impressão de estar assistindo um teatro de variedades bufo, cujo principal quadro é o de um mágico-palhaço que realiza coisas absurdas, como tirar a sua cabeça, e, com um fole, inflá-la até explodi-la. Há também pequenas peças com um enredo e personagens bem definidos, como no Barbe-bleu. Mas não só o conteúdo dos filmes é diretamente retirado do teatro, a câmera sempre estática e sempre no mesmo ângulo, o ângulo da visão de um espectador de teatro, e os cenários pintados passam claramente a sensação de estar-se vendo um espetáculo teatral. É principalmente o uso de todos os recursos que o cinema lhe fornece, seus filmes transbordam de efeitos especiais, e a caráter absurdo/fantástico dos seus filmes que marca a diferença.

De todos os seus filmes talvez o mais importante tenha sido o grande clássico Voyage dans la Lune. É um dos primeiros filmes que, apesar de conter também as características acima, mais se afasta do teatro e ruma a uma arte que lhe é verdadeiramente diferenciada. É uma história completa com personagens não bem definidos mas personagens de alguma forma individualizados, com ampla variedade de cenários e cenas que jamais caberiam numa peça de teatro.

A obra de Méliès não é, ou não deveria ser, hermético objeto de historiadores do cinema, mas sim amplamente acessível a todos. Entretanto, não se pense que seus filmes sejam meras produtos descartáveis o fantástico neles deixa marcas e faz pensar, ou, ao menos, são memoráveis palhaçadas. Além disso, importante para o espectador moderno que vê seus filmes, é notar que muitos dos expedientes a que recorrem os desenhos animados ou comédias, feitos posteriormente, não passam de mera cópia do que o mestre Méliès já tinha criado décadas antes, o que certamente nos fará pensar que o cinema hoje não passa da repetição do que já foi feito de maneira muito melhor e mais sincera antigamente.

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