sexta-feira, junho 06, 2003

MANIFESTO DOS DRAMATURGOS FUTURISTAS (1911)

Mais um experimento translingüístico

MANIFESTO DOS DRAMATURGOS FUTURISTAS (1911)
de F. T. MARINETTI

Entre todas as formas literárias, aquela que pode ter uma capacidade futurista mais imediata é certamente a obra teatral. Nós queremos portanto que a Arte dramática não continue a ser o que é hoje: um mesquinho produto industrial submetido ao mercado dos divertimentos e dos prazeres cidadãos, é necessário varrer para o lixo todos os imundos prejuízos que achatam os autores, os atores e o público.

1. Nós futuristas ensinamos antes de tudo aos autores o desprezo ao público e especialmente o desprezo ao público das primeiras apresentações, do qual podemos sintetizar assim a psicologia: rivalidade de chapéus e de toilettes feminis, - vaidade pelo lugar que se pagou caro, que se transforma em orgulho intelectual, - palcos e platéia ocupados por homens maduros e ricos, com cérebro naturalmente depreciante e com digestão laboriosíssima, que torna impossível todo e qualquer esforço da mente.

O público, variando de mesa para mesa, de cidade para cidade e de bairro para bairro, sujeito aos acontecimentos políticos e sociais, aos caprichos da moda, aos aguaceiros da chuva, ao excesso de calor ou de frio, ao último artigo lido após o almoço, não tendo desgraçadamente hoje outro desejo senão aquele de digerir agradavelmente no teatro, nada pode corrigir, aprovar o desaprovar em um trabalho de arte.

O autor pode esforçar-se em puxá-lo a si, fora da sua mediocridade, como se puxa um naufrago à deriva. Guarde-se, entretanto, de deixar-se aferrar pelas suas mãos pavorosas, uma vez que afundaria com ele, ao som de aplausos.

2. Nós ensinamos, além disso, o horror do sucesso imediato que sói coroar as obras medíocres e banais. Os trabalhos teatrais que aferram diretamente, sem intermediários, sem explicações todos os indivíduos de um público, são obras mais ou menos bem construídas, mas absolutamente privadas de novidade e, portanto, de genialidade criadora.

3.Os autores não devem ter outra preocupação que aquela de uma absoluta originalidade inovadora. Todos os trabalhos dramáticos que partam de um lugar-comum ou tomam de outras obras de arte as concepções, a trama ou uma parte do seu desenvolvimento, são absolutamente depreciáveis.

4.Os leit-motivs do amor e o triângulo amoroso, tendo já sido usados em demasia, devem ser absolutamente desterrados do teatro. Em cena, o amor e o triângulo smoroso devem ser reduzidos ao valor secundário de episódios ou de acessórios, isto é, ao mesmo valor ao qual estão agora reduzidos na vida, por efeito do grande esforço futurista.

5.Uma vez que a arte dramática não pode ter, como todas as artes, outro escopo senão aquele de arrancar a alma do público da baixa realidade quotidiana e de exaltá-la a uma atmosfera deslumbrante de ebriedade intelectual, nós desprezamos todos aqueles trabalhos que querem unicamente comover e fazer chorar, mediante o espetáculo inevitavelmente piedoso de uma mão à qual morre o filho, ou aquele de uma rapariga que não pode esposar o seu namorado, ou outras semelhantes insipidezas.

6.Nós desprezamos em arte, e mais particularmente no teatro, todas as espécies de reconstruções históricas, seja que essas levantem interesse a um herói ou a uma heroína ilustre (Nero, Júlio César, Napoleão, Francesca de Rimini), seja que se baseiem sobre a sugestão exercitada da suntuosidade inútil dos costumes e dos cenários do passado

O drama moderno deve refletir alguma parte do grande sonho futurista que surge da nossa vida hodierna, exasperada pelas velocidades terrestres, marinhas e aéreas, e dominada pelo vapor e pela eletricidade. É necessário introduzir no teatro a sensação do domínio do Automóvel, os grandes calafrios que agitam as multidões, as novas correntes de idéias e as grandes descobertas da ciência, que transformaram completamente a nossa sensibilidade e a nossa mentalidade de homens do século vinte.

7.A arte dramática não deve fazer fotografia psicológica, mas, ao contrário, tender a uma síntese da vida nas suas linhas mais típicas e mais significativas.

8.Não pode existir arte dramática sem poesia, isto é, sem ebriedade e sem síntese.

As formas prosódicas regulares devem ser excluídas. O escritor futurista servir-se-á então, pelo teatro, do verso livre: móvel orquestração de imagens e de sons, que passando do tom mais simples, quando se trata, por exemplo, do ingresso de um doméstico o do fechamento de uma porta, possa elevar-se gradualmente, ao ritmo das paixões, em estrofes cadenciadas ou caóticas de quando em quando, quando se trata de anunciar a vitória de um povo ou a morte gloriosa de um aviador.

9.É necessário destruir a obsessão pela riqueza, entre os literatos, posto que a avidez pelo ganho incitou ao teatro escritores exclusivamente dotados de qualidades de crítico ou de cronista mundano.

10. Nós queremos submeter completamente os atores à autoridade dos escritores, e arrancá-los da domínio do público que os incita fatalmente a procurar o efeito fácil, afastando-os de qualquer busca de interpretação profunda. Por isso, é necessário abolir o hábito grotesco dos aplausos e vaias, que pode servir de barômetro à eloqüência parlamentar, mas certamente não ao valor de uma obra de arte.

11.Enquanto esperamos esta abolição, nós ensinamos aos autores e aos atores a volúpia de ser vaiado.

Todo o que vem vaiado não é necessariamente belo ou novo. Mas tudo o que vem imediatamente aplaudido, certamente não é superior à média das inteligências e é, portanto, coisa medíocre, banal, revomitada ou demasiado bem digerida.


No afirmar-vos estas convicções futuristas, tenho a alegria de saber que o meu gênio, muitas vezes vaiado pelos públicos da França e da Itália, não será mais sepultado sob aplausos demasiado pesados, como um Rostand qualquer!...

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