sexta-feira, junho 06, 2003

MANIFESTO POLÍTICO FUTURISTA (1915)

Ecos do passado:

MANIFESTO POLÍTICO FUTURISTA (1915)
de Filippo Tommaso Marinetti

No 1o. Manifesto do Futurismo, publicado no “Figaro” de 20 de fevereiro de 1909, isto é, cerca de 2 anos antes da fundação da Associação Nacionalista Italiana e cerca de 3 anos antes da guerra da Líbia, nós nos proclamamos Nacionalistas futuristas, isto é, antitradicionais. Glorificamos o patriotismo, o exército e a guerra; iniciamos uma campanha anticlerical e anti-socialista para preparar uma Itália maior, mais forte e mais inovadora, uma Itália liberada do seu passado ilustre, e por isso apta a criar-se um futuro imenso.

Para reavivar o antitriplicismo e o irredentismo, iniciamos o movimento futurista em Trieste, cidade na qual tivemos a honra de realizar a primeira das nossas Noitadas futuristas (Politema Rossetti, 12 de janeiro de 1910). Fechamos a nossa segundo Noitada futurista (Milão – Teatro Lirico – 15 de fevereiro de 1910) gritando: Viva a Guerra única higiene do mundo! Viva Asinari di Bernezzo! Abaixo a Áustria!

Estes gritos, lançados a quatro mil espectadores e repetidos pela massa de estudantes nos conseguiram, naquele momento de pacifismo e quietismo, um furacão de vaias, as injúrias e as calúnias dos ditos bem-pensantes; Já havíamos lançado em toda Itália o seguinte manifesto (Eleições gerais de 1909):


Eleitores futuristas!

Nós futuristas, tendo por único programa político o orgulho, a energia e a expansão nacional, denunciamos ao país a indelével vergonha de uma possível vitória clerical.

Nós futuristas invocamos a todos os jovens engenhos da Itália uma luta à ulterioridade contra os candidatos que compactuam com os velhos e com os padres.

Nós futuristas queremos uma representação nacional que, desimpedida de múmias, livre de toda vileza pacifista, esteja pronta a desbaratar cada cilada, a responder a todo e qualquer ultraje.


OS FUTURISTAS

A nossa postura abertamente guerreira e ferozmente patriótica foi a principal causa das hostilidades e das calúnias que nos foram sistematicamente esbanjadas pela impressa italiana.

Com milhões de manifestos, volumes e opúsculos em todas as línguas, com muitíssimas brigas e bofetadas, com mais de 800 conferências, exposições e concertos, nós impusemos em todo o mundo e particularmente na Europa, o predomínio do gênio criador e inovador italiano sobre os gênios criadores das outras raças.

Nós assim temos tido a glória de levar a arte italiana à frente da arte mundial, por nós muito superada e deixada para trás.

Ao estourar da guerra da Líbia (1911) publicamos este outro manifesto:


Nós futuristas que há mais de dois anos glorificamos, entre as vaias dos podagrosos e dos paralíticos, o amor ao perigo e à violência, o patriotismo e a guerra, única higiene do mundo, estamos felizes de viver finalmente esta grande hora futurista da Itália, enquanto agoniza a imunda progênie dos pacifistas entocados agora nas profundas cantinas do seu risível palácio de Aia.

Temos recentemente espancado com prazer, nas ruas e nas praças, os mais febris adversários da guerra, gritando-lhes na cara estes nossos sólidos princípios:

1) Sejam concedidas ao indivíduo e ao povo todas as liberdades, salvo aquela de ser velhaco
2) Seja proclamado que a palavra ITÁLIA deve dominar sobre a palavra LIBERDADE
3) Seja apagada a fastidiosa lembrança da grandeza romana, com uma grandeza italiana cem vezes maior.

A Itália tem hoje para nós a forma e a potência de uma bela dreadnought com a sua esquadrilha de ilhas torpedeiras. Orgulhosos de sentir igual ao nosso o fervor bélico que anima todo o País, incitamos o governo italiano, tornado finalmente futurista, a agigantar todas as ambições nacionais, desprezando as estúpidas acusações de pirataria e proclamando o nascimento do PANITALIANISMO.

Poetas, pintores, escultores e músicos futuristas da Itália! Enquanto durar a guerra, deixemos de lado os versos, os pincéis, os cinzéis e as orquestras! Começaram as rubras férias do gênio! Nada podemos admirar, hoje, senão as formidáveis sinfonias dos fragmentos das bombas e as loucas esculturas que a nossa inspirada artilharia forja nas massas inimigas.

F. T. Marinetti


E em outubro de 1913, difundimos entre os eleitores este nosso programa político, que obteve adesão de toda a juventude italiana.


PROGRAMA POLÍTICO FUTURISTA

Itália soberana absoluta – A palavra ITÁLIA deve dominar sobre a palavra LIBERDADE.

Todas as liberdades, salvo aquela de ser velhaco, pacifista, antiitaliano.

Uma maior frota e um maior exército; um povo orgulhoso de ser italiano, pela Guerra, única higiene do mundo e pela grandeza de uma Itália intensamente agrícola, industrial e comercial.

Defesa econômica e educação patriótica do proletariado.

Política externa cínica, astuta e agressiva; Expansionismo colonial – Liberalismo.

Irredentismo – Panitalianismo – Primado da Itália.

Anticlericalismo e anti-socialismo.

Culto do progresso e da velocidade, do esporte, da força física, da coragem temerária, do heroísmo e do perigo, contra a obsessão da cultura, o ensino clássico, o museu, a biblioteca e as ruínas.

Supressão das Academias e dos Conservatórios.

Muitas escolas práticas de comércio, indústria e agricultura. Muitos institutos de educação física. Ginástica quotidiana nas escolas. Predomínio da ginástica sobre o livro.

Um mínimo de professores, pouquíssimos advogados, pouquíssimos doutores, muitíssimos agricultores, engenheiros, químicos, mecânicos e produtores de negócios.

Exatoração dos mortos, dos velhos e dos oportunistas, em favor dos jovens audazes.

Contra a monumentomania e a ingerência do Governo em matéria de arte.

Modernização violenta das cidades passadistas (Roma, Veneza, Florença, etc.).

Abolição da indústria estrangeira, humilhante e aleatória.


ESTE PROGRAMA VENCERÁ


O programa clérico-moderado-liberal o programa democrático-republicano-socialista

Monarquia e Vaticano República

Ódio e desprezo do povo Povo soberano

Patriotismo tradicional e comemorativo Internacionalismo pacifista

Militarismo intermitente Antimilitarismo

Clericalismo Anticlericalismo

Protecionismo mesquinho ou liberalismo fraco Liberalismo interessado

Culto aos avós e ceticismo Mediocracia e ceticismo

Senilismo e moralismoOportunismo e negocismo Senilismo e moralismoOportunismo e negocismo

Conservadorismo Demagogismo

Culto aos museus, aos escombros monumentos Culto aos museus, aos escombros, aos monumentos

Indústria estrangeira Indústria estrangeira

Obsessão pela cultura Sociologia de comício

Academismo Racionalismo positivista

Ideal de uma Itália arqueológica, beata e podagrosa Ideal de uma Itália burguêssuja, avarenta e sentimental

Quietismo ventralista Quietismo ventralista

Velhacaria negroPassadismo Velhacaria rubroPassadismo

MILÃO, 11 de outubro de 1913


Pelo grupo dirigente do Movimento futurista:

Marinetti – Boccioni – Carrà – Russolo


Do 20 de agosto de 1915 a hoje, esperando a alegria de bater-nos na fronteira oriental, organizamos as duas primeiras violentíssimas demonstrações antineutros em Milão. Dirigimos então, em Roma e em Milão, nas universidades e nas praças, mais de 30 demonstrações igualmente eficazes.

Fomos outras tantas vezes presos, e fomos os únicos a sofrer cinco dias de cárcere por ter pedido violentamente a grande e higiênica nossa guerra.

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