terça-feira, setembro 30, 2003

Notas Zero

Heidegger – O que é uma coisa?, intro.

.1.
A questão “que é uma coisa?” é uma questão fundamental da metafísica, isto é, pertence ao cerne e ao centro da filosofia.

.2.
Pode-se dizer “é uma coisa” dos mais variados objetos, dos mais imediatos, como uma mesa ou um teclado, aos mais abstratos e afastados de nós, como o número 44, Deus ou o ódio. A coisa diz-se, então, em três sentidos: estrito (coisa que está ao alcance de mão), lato (planos, resoluções, convicções, maneira de pensar...) e ainda mais lato (qualquer coisa que não seja o nada). Tal fixação arbitrária dos sentidos de “coisa” fixa também o domínio e a direção da questão.

À questão “que é uma coisa?”, então, precisa-se definir em que sentido está-se dizendo “coisa”, sob pena de procurar algo sem saber o que se está procurando. Heidegger começa pela coisa no sentido estrito.

.3.
As coisas em sentido estrito já foram determinadas pela ciência e pela técnica. O que é um sapato diz-nos rápida e certeiramente o sapateiro. Chegamos demasiado tarde, nada se pode começar pela questão “que é uma coisa”.

Contudo, com a nossa questão queremos saber o que são as coisas enquanto coisas, o que a ciência e a técnica não nos podem responder, pois se preocupam com as coisas em suas relações com as outras coisas.

Com a pergunta “que é uma coisa” deseja-se sabe o que torna-coisa a coisa, e não madeira, mesa, número (tarefa da ciência). Não pergunta-se pela coisa enquanto determinada espécie, mas pela coisalidade da coisa. Esta coisalidade já não pode ser coisa, deve ser incondicionado. Devemos ir até o que já-não-é-coisa.

Devemos saber o que o cientista não quer saber. E não nos trará nenhuma vantagem prática sabê-lo.

Colocamo-nos fora das ciências, sem pretender melhorá-las ou lhe sermos melhores. Cabe a questão: é a ciência a única medida para o saber, ou há um outro saber que fundamenta e determina os limites da ciência? Se há, pode-se passar sem ele?

.4.

Onde está a coisa? Não se encontra jamais a coisa, porém apenas coisas particulares. Por quê? Por causa de nós ou da própria coisa?

O Sol é visto de modo diferente pelo astrônomo e pelo pastor, qual dos dois é o Sol verdadeiro? Para decidi-lo é necessário saber que é uma coisa, e nem o pastor nem o astrofísico no-lo podem responder, nem mesmo necessitam fazê-lo.
.5.

A experiência mostra-no serem as coisas coisas singulares. Não há coisa geral, a coisa é sempre esta coisa e nenhuma outra.

O cientista não se preocupa com este aspecto da coisa enquanto coisa, dado que está interessado não no particular, mas no geral. São-lhe os particulares apenas exemplares do universal. A determinação universal da coisa “consiste no fato de ela ser ‘esta coisa’, a sua ‘istidade’”.

Terá isto validade universal? Não há duas coisas idênticas? Como dois baldes iguais? Mesmo as coisas ditas idênticas dão-se como coisas particulares, pois possui cada uma um espaço-tempo distinto. Nunca há duas coisas iguais.

O questão da coisa inclui então as questões “que é espaço?” e “que é tempo?”. Por que espaço e tempo estão unidos um ao outro? A unidade do espaço e tempo determina a istidade da coisa.

Mas espaço e tempo são determinações da própria coisa? São espaço e tempo apenas um quadro para as coisas (onde as colocamos) ou algo de diferente?

Onde está o espaço e o tempo? No interior das coisas, ou lhes é atribuição exterior? Espaço e tempo são exteriores às coisas. São domínios susceptíveis de acolher as coisas, indiferentes a elas. A coisa só é “esta coisa” na perspectiva do tempo e do espaço. Pode então haver duas coisa iguais?

A questão do modo de ser das coisas está totalmente dependente da questão do Ser.

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